segunda-feira, 18 de março de 2019

Como evitar novos massacres?




A gente quer saber por que alguém faz algo tão grotesco como aqueles dois rapazes que mataram 8 e feriram 11 pessoas indefesas numa manhã comum de verão em Suzano, em 13\3\2019. Quando essas tragédias acontecem, perguntar “por quê?” é uma tentativa inicial de chegar à resposta que mais interessa: como evitar que aconteça de novo. Porque ninguém quer estar à mercê da brutalidade aleatória, e porque ninguém quer se ver um dia no lugar dos familiares dos homicidas. Junto com a dor compartilhada e o luto, busca-se um rumo, uma imagem que recomponha o cenário estilhaçado pelo absurdo.

Quem tem filhos pequenos quer saber o que fazer para que adolescentes (os meus, os seus, os deles, os nossos) não se transformem naqueles matadores. No geral, essas tragédias suscitam debates sobre políticas de segurança, e é mesmo importante discutir o acesso a armas, o papel dos funcionários das escolas etc. Também há debates necessários sobre a cultura da violência nos filmes e games, no discurso (inclusive de autoridades) que legitima o uso da força letal, no bullying, nas artimanhas de grupos radicais que promovem crimes de ódio etc. Mães e pais têm muito interesse nesses temas, mas nenhum deles interessa tanto quanto as causas da evolução de uma criança à condição de autor de massacre.

A chave na infância

Evitar que essa evolução ocorra é a chave de todas as políticas, e sabe-se — até intuitivamente — que ela está no cotidiano das famílias, na rotina dos adultos que cuidam de crianças. A lógica é simples: se todos conseguirem apoiar adequadamente o desenvolvimento dos filhos, reduz-se a probabilidade de que os futuros adolescentes e adultos venham a representar riscos e perdas à comunidade. A partir daí, as políticas de segurança tendem a ser mais baratas e eficazes. Essa lógica é um raro consenso nesses tempos de polarização ideológica, está presente nos argumentos da esquerda, do centro e da direita.

Faz sentido pensar que a dupla de assassinos da escola Raul Brasil poderia ter tido um futuro melhor, se ambos tivessem desenvolvido algumas capacidades a partir da infância. Não se sabe exatamente quais fatores se alinharam para resultar na tragédia, mas é estatisticamente evidente que a dificuldade de se enturmar e de namorar, o assédio moral e até a depressão são causas insuficientes para se planejar e executar uma chacina seguida de suicídio. Alguma coisa, ou alguma falta, fez aqueles caras serem incapazes de lidar com os desafios do convívio, e parece tê-los levado à deep\dark web, onde psicopatas sem causa e terroristas apocalípticos dão plantão para manipular ressentimentos.


Estrutura emocional

Ser zoado no pátio é revoltante, ser gelado pela galera é terrível, sentir-se feio e não desejado é muito triste. Dá vontade de se vingar, de fazer sofrer e até de matar, sim. Quem cresceu num ambiente minimamente afetivo, com limites e suporte para construir uma estrutura emocional suficientemente sólida, também sofre nessas situações, sente raiva e pensa em vingança, mas consegue transformar esses impulsos e pensamentos em alguma nova perspectiva de vida. A capacidade de afeto (empatia, compaixão...) ajuda a processar o impulso de infligir sofrimento aos outros, mesmo sob frustração e dor. Porque a dor de fazer mal é maior, o mal turva o próprio bem-estar e reduz a felicidade.

A vida é dura para a grande maioria dos terráqueos, e injusta para muitos, mas é preciso estar doente, psíquica e\ou emocionalmente, para começar a achar que ela vale menos do que a morte. Essa condição pode surgir em qualquer idade, mas a resiliência e a capacidade de desejar, de fazer planos e perseguir seus sonhos, faz com que a maioria siga em frente, insistindo, experimentando, perdendo e ganhando — e chorando em solidariedade às vítimas de um massacre. Também essas competências são construídas na infância, na relação diária das crianças com os adultos que cuidam delas.

Trabalho com as crianças

Mas, se a questão é como evitar que outros adolescentes se entreguem às trevas, e se a chave da solução é o cuidado na infância, é necessário ir mais fundo e além daquela resposta padrão, tipo “tudo começa na família”. A ideia da “família estruturada” está longe de ser resposta para o desenvolvimento da empatia, da resiliência, da capacidade de desejar e trabalhar por seus sonhos, assim como de outras competências emocionais. Sejam casais comuns, sejam famílias com formatos diversos, sejam cuidadores dos filhos dos outros, todos precisam arregaçar as mangas e trabalhar arduamente nessa tarefa de criar seres humanos. Parece óbvio, mas não é.

Esse trabalho é difícil, chato e cansativo, porque ocorre justamente naquela peleja diária de choros, birras e traquinagens, na mesmice tediosa dos dois primeiros anos de vida dos bebês, na administração da rotina de sono, banhos e refeições da molecada, na lida com as explosões de raiva diante dos limites... Em muitas “famílias estruturadas” nem sempre há disposição para esse esforço. Troca-se limite por negociação, frustração por compensação, choro e revolta (“me poupe…”) por uma intelectualização precoce de crianças que se comportam bem hoje, mas que terão sérias dificuldades para lidar com os nãos apresentados pela vida. Por preguiça, comodidade, desconhecimento ou tudo junto, deixa-se que os pequenos cresçam sem passar pelas experiências necessárias para transformar seus impulsos primitivos em sentimentos.


Novos desafios para quem cuida

Em escala social, esses lapsos no cuidado às crianças podem ter impacto nas epidemias de obesidade e drogadição, na alta ocorrência de depressão e dependência de medicamentos, por exemplo. Adolescentes emocionalmente frágeis também estarão mais suscetíveis a relações tóxicas, e nelas inclui-se a submissão a grupos e líderes manipuladores. Não se trata de uma sentença de condenação, mas é evidentemente alta a probabilidade de uma evolução problemática para a adolescência e a vida adulta. Ainda mais quando cresce a oferta de drogas de rápida adicção, de incentivos ao uso de armas e de causas exóticas para justificar e facilitar a vingança suicida.

Esses desafios adicionais estão hoje na agenda de mães, pais e cuidadores de crianças — em todos os tipos de arranjo familiar —, e são grandes motivos para que assumam de fato suas funções. É indispensável que a evolução para a adolescência tenha uma perspectiva de crescimento e realização, que o adolescente crie para si um valor de vida suficiente para resistir aos obstáculos, às tristezas e iras, às seduções e manipulações, suficiente para atiçar a criatividade e dar-lhe forças para transformar sua realidade. Isso só é possível com a insubstituível ajuda dos adultos, em cada momento aparentemente banal da rotina com os pequenos.


David Moisés e Angela Minatti

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Limites para o futuro ………. p.47


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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Cuidado com os brinquedos 'neurocientíficos'


Nos dois posts anteriores, você ficou sabendo quais são as características fundamentais de um brinquedo realmente educativo, e viu o que dizem especialistas sobre alguns exemplos de brinquedos, aplicativos e softwares oferecidos no mercado. Este último post da série trata das descobertas científicas sobre o impacto dos jogos educativos no aprendizado das crianças. Saber um pouco dessas coisas é importante pra gente não entrar ingenuamente na onda do “brain training” infantil.

Essa onda é agitada por empresas que estão ocupando o nicho dos brinquedos “neurocientíficos”. É legal alguém transformar o conhecimento científico avançado em produtos e serviços que melhoram a vida das pessoas, mas há sempre o risco de alguma coisa não funcionar. E há também o risco de empresas menos sérias saírem vendendo fórmulas mágicas para turbinar a genialidade da molecada, tudo com o selo da neurociência-para-o-dia-a-dia.



O “treinamento do cérebro” ou “treinamento cognitivo” vem ocupando espaço como uma das categorias de brinquedos e jogos infantis, e é nela que aparecem algumas fórmulas bem questionáveis. As pesquisadoras Brenna Hassinger-Das e Kathy Hirsh-Pasek compilaram os mais recentes estudos sobre a aprendizagem humana e constataram: o “brain training” é muito limitado em seus benefícios e em sua utilidade.

Primeiro, é importante lembrar que esse tipo de treinamento foi concebido para adultos, especialmente idosos. As pesquisas com esses indivíduos mostraram que eles melhoram as respostas específicas nas tarefas em que foram treinados. Só. Se você treina com um app para ter ganho de memória, você ganha memória apenas para execução de tarefas similares, mas não ganha velocidade de processamento de ideias; e vice versa. Assim, não dá pra dizer que o treinamento cognitivo vai aumentar sua inteligência, sua memória, sua habilidade de pensar etc.

Benefícios mais amplos para as crianças são obtidos com brinquedos, aplicativos e programas que extrapolam o simples treinamento e desafiam os pequenos em suas competências emocionais e cognitivas conjuntamente. Aí vale lembrar aqueles cinco critérios que caracterizam o potencial educativo dos jogos e brinquedos, com destaque especial para a interação humana. Embora possa haver ganhos eventuais de aprendizado num app solo, é na brincadeira coletiva que a molecada desenvolve mesmo suas múltiplas capacidades, segundo as pesquisas.


A tendência do mercado, porém, é ir no sentido contrário. Hassinger-Das e Hirsh-Pasek observam que o esforço das empresas está justamente em criar amiguinhos virtuais e outros recursos interativos para que cada criança possa passar mais tempo sozinha com seu tablet ou celular. E alertam que é preciso pesquisar mais as consequências desse “brain training” solitário sobre o cérebro dos pequenos.

A propósito, há um grande estudo longitudinal que está para ser divulgado nos EUA, tratando desse tema. As pesquisadoras não adiantam informações, mas uma entrevista na CBS News, em dezembro\2018, revelou alguns pontos importantes. Na entrevista, Gaya Dowling, do National Institutes of Health (NIH), disse que crianças de 9 e 10 anos…

  • que passavam mais de sete horas por dia com tablets, smartphones e videogames apresentaram um afinamento prematuro do córtex, isto é, uma antecipação do processo de amadurecimento da área cerebral que processa informações dos cinco sentidos (Dowling ressalvou que ainda não se pode dizer se isso é bom ou ruim, e nem se o fenômeno decorre diretamente do uso de telas pelas crianças);
  • que passavam mais de duas horas por dia diante de telas tiveram notas mais baixas em testes de raciocínio e linguagem.

O estudo do NIH entrevistou e escaneou 11 mil crianças durante uma década, em 21 pontos dos EUA, a um custo de US$ 300 milhões. Deve ser publicado neste começo de 2019. Quanto ao artigo de Hassinger-Das e Hirsh-Pasek, que nos guiou nestes três posts, foi publicado na edição de janeiro\2019 da revista Cerebrum, da Dana Foundation, que incentiva pesquisas sobre o cérebro.



David Moisés

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A regra do jogo entre pais e filhos..........p. 94


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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Brinquedos educativos (e outros nem tanto)


Há um número razoável de brinquedos, aplicativos e sotwares que podem ser honestamente considerados educativos. As pesquisadoras Brenna Hassinger-Das e Kathy Hirsh-Pasek fizeram uma meta-análise usando aqueles cinco critérios que caracterizam o potencial pedagógico dos produtos à venda, e escreveram sobre alguns deles. Nem todos estão nas lojas brasileiras, mas quase sempre há similares.

A categoria dos brinquedos de montar (block building) parece receber a melhor avaliação. Uma criança de 3 anos que brinca de montar blocos, dizem os estudos, mostra melhor consciência espacial, incluindo a habilidade de transformação espacial. Além disso, mostrará melhor compreensão matemática quando chegar ao ensino fundamental. Esses brinquedos ajudam a desenvolver capacidades relacionadas aos campos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.



Lego é considerado um bom modelo nessa categoria, por exigir da criança uma postura ativa e engajada, por envolver questões relacionados à vida real dos pequenos e permitir interação com outras pessoas. A criança faz rotação de peças, alinha e corrige bordas, observa formas etc. Nem sempre, porém, o Lego tem um objetivo pedagógico explícito.

Mega Blocks e Magna Tiles também são citados de modo positivo, enquanto King Arthur’s Castle é mencionado com uma qualidade adicional: ao montar o castelo, “com fosso” e tudo, os pequenos podem exercitar também habilidades de narrativa. Por fim, o jogo virtual de montagem de blocos Minecraft é elogiado pelas “possibilidades ilimitadas de experiências individuais” que “permitem aprender geometria espacial, linguagens, letramento e ecologia”, além de refinar habilidades de resolução de problemas.



Na categoria da combinação de peças (tile-matching) em tela digital, o app\programa Tetris também é reconhecido como educativo para crianças, por “aumentar habilidades de visualização espacial e rotação mental”.

Na categoria dos jogos de palavras, Scrabble Junior e Boggle Junior são citados pelas pesquisadoras como exercícios que melhoram o raciocínio fluido ou a velocidade do processamento das ideias, dependendo do tipo de operação que se faz no jogo. Neles, as crianças rearranjam as letras, dando formas mais sofisticadas às unidades de sentido das palavras. Além de contemplar os cinco critérios, apresentam também um “elemento competitivo que parece motivar o aprendizado e criar uma visão prazerosa em relação ao aprendizado”.

Na banda dos reprovados, as autoras dão exemplos de duas diversões ruinzinhas e de dois produtos que causam vergonha alheia. O primeiro é um app, vendido com apelo “educativo”, que se limita a expor algumas formas geométricas e solicitar que a criança aponte o quadrado, o círculo etc; daí, som de aplausos se ela acerta, ou um “tente de novo!” se ela erra. “Dificilmente inspira aprendizado”, avaliam.
Já o brinquedo de encaixe de formas geométricas com recursos eletrônicos, peca justamente pelos recursos eletrônicos: teclas de piano e botões com áudios tipo “pare”, “devagar” etc. A parafernália tec mais atrapalha do que ajuda. Os pais brincam muito mais com os pequenos, usando expressões espaciais tipo quadrado e triângulo, e acima ou abaixo, quando brincam de encaixe sem usar os botões, teclas e sons, segundo as pesquisadoras.






Entrando na zona dos brinquedos falsamente educativos, desponta o iPotty, um peniquinho com suporte para tablet. Foi eleito o pior brinquedo do ano de 2013, nos EUA, pela campanha Infância Livre de Comércio. Sugerir que o nenê faça cocô ou xixi de olho num tablet é reforçar a ideia de que a criança precisa ser entretida a cada segundo do dia, mesmo quando vai ao banheiro. Isso, sem falar no impacto no processo de desfraldamento.

Por último, um game para crianças que teve de ser retirado do mercado, em maio de 2018. O LumiKids era tão fraco do ponto de vista educativo, que a empresa Lumosity precisou pagar US$ 2 milhões num processo por propaganda enganosa, pois “falhou em cumprir o que prometia”. Este vídeo de 2015 dá uma ideia do que rolava no joguinho.


David Moisés

[ No próximo post desta série: o que a ciência já descobriu sobre o treinamento cerebral com brinquedos e jogos ]


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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O que faz um brinquedo ser (ou não) educativo



O que faz um brinquedo, um aplicativo ou um software ser realmente educativo e contribuir para o desenvolvimento da criança? Esta pergunta é respondida num artigo que acabou de sair (janeiro\2019). Nele, duas pesquisadoras de universidades dos EUA organizam as mais recentes informações de estudos científicos sobre o processo de aprendizado humano e os chamados “brain training” para crianças.
Segundo Brenna Hassinger-Das e Kathy Hirsh-Pasek, podem ser considerados efetivamente
educativos os brinquedos, apps e programas que
1 - requerem da criança um processo ativo, e não passivo;
2 - requerem atenção e engajamento, ou seja, não são uma distração para a criança;
3 - envolvem temas e questões do dia a dia da criança, que fazem sentido para ela;
4 - requerem interação humana, sem atividades solo;
5 - têm um claro propósito de aprendizado.
Levando em conta estas cinco características aferíveis, é mais fácil saber o que procurar e o que evitar na seção dos “pedagógicos” das lojas.

O mais interessante no artigo, porém, é a constatação de que existe uma característica crucial entre aquelas cinco. As autoras observam que a (4) interação humana é o “elemento crítico” do desenvolvimento de capacidades via brinquedos, apps e programas. Por esta razão, deram ao artigo o título “Brain training for kids: adding a human touch”.


Entre os estudos analisados, as pesquisadoras citam um que foi feito com crianças de 2 anos: quando engajadas numa conversação fluida, tanto presencial quanto via videoconferência, elas aprenderam perfeitamente duas novas palavras que lhes foram apresentadas; mas quando essas palavras foram apresentadas num vídeo, sem interação, o aprendizado foi nitidamente inferior.

A interação humana tem uma função no próprio desenvolvimento cerebral, segundo as pesquisas. Ajuda a desenvolver o chamado controle proativo, resultado de “mecanismos neurais no córtex pré-frontal, que colhem informações do ambiente e permitem inferir o que deve acontecer em seguida”. O suporte do adulto, ou ao menos de uma pessoa mais madura que a criança, seria o motor desse mecanismo, com interações que permitem trocas divertidas, que favorecem o aprendizado.

“Se os humanos aprendem por meio de um cérebro socialmente sensível, e há muitas evidências disso, então o melhor treinamento cerebral para crianças deve ser por meio da interação humano-humano”, escrevem as autoras, acrescentando uma observação: é justamente essa interação que é “tipicamente sacrificada” quando a criança se senta sozinha com um “brinquedo de treinamento cerebral”.

David Moisés

[ No próximo post, as constatações das autoras do estudo sobre alguns brinquedos, apps e softwares educativos ]


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sábado, 19 de janeiro de 2019

Política e democracia para crianças (2)


Se você também anda preocupado com o nível dos debates e tensões no campo político, provavelmente está empenhado em ajudar suas crianças a desenvolver ao menos três capacidades: (1) saber lidar com ataques e ofensas nas discussões, (2) ouvir e respeitar as opiniões dos outros, ainda que discordem delas, e (3) sustentar suas ideias de modo firme e tranquilo, melhorando-as a partir do estudo, do diálogo e da ponderação. Com isso, o sujeito tem aquele equilíbrio básico pra não sofrer com bate-bocas inúteis — e pode até ajudar a melhorar a qualidade das conversas sobre a política.


Não há cursos ou academias para instalar essas capacidades nas crianças, mas há experiências do dia-a-dia que favorecem o seu desenvolvimento.

Uma delas é ficar “fazendo nada” com aquela figurinha de 2 anos, apenas acompanhando o que ela olha, o que ela toca, o que ela faz…, e falando de cada uma dessas coisas, colocando palavras simples sobre o avião que ela vê no céu, sobre a pedrinha ou o graveto que ela pegou, sobre o seu andar enquanto passeiam por uma calçada do bairro… Parece nada a ver, mas este é um dos caminhos pelos quais o adulto ajuda a criança a se reconhecer como pessoa, a saber de seu lugar e seu valor no mundo.

Com as crianças maiores, um pouco da prática do debate pode acontecer nas conversas mais elaboradas, nas discussões e até nas brigas. Aí cabe aos grandes garantir aos pequenos o espaço para a expressão de seus sentimentos, vontades e opiniões — sem aquela pressa de resolver tudo e “pacificar” o ambiente. Não pode ser juiz do conflito, apontar certos e errados, vencedor e perdedor. O adulto precisa estar ali para acolher cada um, ouvindo e até dando colo a quem fica mais raivoso ou triste no calor de uma discussão.

O que a molecada aprende nessas horas não são estratégias de argumentação ou manobras retóricas, e sim a arte de se posicionar no debate. O domínio desta arte implica justamente aquelas três capacidades, porque se trata de uma consciência sobre si. Quem se reconhece como pessoa, com seu lugar e seu valor intrínseco no mundo, pode ouvir ofensas sem se sentir destruído, pois não depende da aprovação ou da reprovação dos outros. É triste, dói ser atacado, mas a vida segue sem prejuízo às outras relações, dá pra tirar de letra.

Quem compreende seu próprio valor também não depende desta ou daquela ideia. Assim, debater não se torna um confronto de identidades, não é preciso vencer a discussão a qualquer custo (geralmente com sofismas e pós-verdades) para evitar aquela sensação de tragédia à autoimagem. Então é possível ouvir sem medo, com paciência e respeito, apontando concordâncias e discordâncias com as opiniões dos outros. A isso se dá o nome de diálogo.

No diálogo, as ideias sólidas prevalecem e se aprimoram, justamente a partir das ideias apresentadas pelos outros — principalmente pelos adversários —, enquanto as menos sólidas podem ser melhoradas ou mesmo deixadas pra trás. Esta parece ser uma relação mais produtiva e gratificante no universo do debate político. Pode soar impossível, diante do climão atual, mas acredite: quem pode crescer sob os cuidados de um adulto acolhedor tem esse bônus de lucidez e serenidade.

David Moisés e Angela Minatti
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O poder do pensamento livre ………. p.129

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Política e democracia para crianças (1)


Você sabe que a política brasileira não é para amadores. Entre um post aqui, um comentário ali e um compartilhamento acolá, já deve ter se espantado com a habilidade natural de muita gente para torcer os fatos, inverter posições, torturar a lógica, criar versões e teorias de conspiração, só pra dizer que tem razão. E deve ter pensado em como as crianças estariam se sentindo no meio desse tiroteio verbal entre adultos que rosnam suas opiniões.

Aliás, vendo tanto caso perdido, você também deve ter pensado em como evitar que os pequenos um dia se transformem naquele tio grotesco que não será mais convidado pra ceia de Natal, ou naquela vizinha azeda que grita ofensas contra os simpatizantes do outro lado, ou naquele colega da firma que espalha ódio no zap da galera. Faz sentido pensar nas crianças nessas horas. Afinal, a gente acaba se perguntando sobre o que será delas nesse mundo tenso.

O que fizeram com a minha mãe?...

No meio do bate-boca entre os adultos, a molecada às vezes se assusta com caras e palavras explosivas e corrosivas, que fazem as pessoas ficarem estranhas, como se fossem tomadas pelo lado escuro da força. O susto é um peso para os pequenos, mas o problema maior está na transfiguração que eles observam naqueles bocudos, que ficam irreconhecíveis. Aí sobra uma amarga sensação de cadê minha mãe?, o que fizeram com meu pai?.... Uma sensação de ser abandonado no berço.

As discussões via redes sociais podem não ser assustadoras, embora alguns façam expressões faciais tenebrosas enquanto escrevem aquele post lacrador. Mas quando mamãe é abduzida pelo smartphone, com os polegares fervendo no teclado, deixa de estar efetivamente presente para sua prole. No mundo concreto ou na web, isso rolou como uma febre de 40 graus durante a última campanha eleitoral, e tem sido uma febre de 39,5 desde então.

Quer dizer que mamãe e papai não podem participar do debate político pra não deixar as criancinhas abandonadas? Não. É claro que podem — e devem — participar. O mundo sempre precisa do debate para definir seus rumos, inclusive para indicar o futuro de seus filhos. A questão é como se engajar nas discussões sem deixar de ser uma referência segura e permanente para quem precisa de um adulto cuidador. Não dá pra ficar pensando no destino da Humanidade e esquecer dos humaninhos ao seu lado.

Tem solução: um debate bom para as crianças

Do ponto de vista dos pequenos, as discussões dos adultos são até importantes. São uma ótima experiência quando eles podem observar como os grandes dialogam, como ouvem e refletem sobre as posições contrárias, como argumentam e sustentam suas opiniões, como constroem consensos onde é possível e como respeitam as divergências que sempre permanecem. Essa experiência, aliás, é o mais valioso curso de democracia para crianças.

O que faz esse debate ser positivo, e não um momento de abandono, é a atitude dos debatedores, sua capacidade de resistir à tentação de lacrar a discussão. Porque essa capacidade é uma das que caracterizam um adulto razoavelmente amadurecido — e, portanto, capaz de cuidar de suas crias. Ideias simplistas e dicotômicas, tipo bom-ou-mau, e posições rígidas defendidas com agressividade são coisas de crianças, isto é, de pessoas que ainda não cresceram, sobretudo no plano emocional. Adultos suficientemente crescidos conseguem dialogar.

Um esforço que compensa

Qualquer um pode ter ideias e posições radicais, pouco mutáveis, mas isso não significa que o debate tenha de ser uma deprimente briga de trânsito. Opiniões consistentes são aquelas que não sucumbem à contra-argumentação, à prova dos fatos e às críticas, inclusive àquelas baseadas no ressentimento e sua pós-verdade. É possível — e necessário — enfrentar opiniões opostas sem partir pro ataque às pessoas que opinam, e a molecada percebe quando isso não tá rolando.

A gente sabe que é difícil resistir a provocações, escapar de armadilhas retóricas, respeitar quem fere a lógica e o decoro etc, mas esse é um esforço compensador. Além de reduzir a perda de tempo em discussões que levam a nada — aumentando assim a disponibilidade de atenção às crianças —, uma postura equilibrada mostra a elas que é possível discutir sem (se) destruir, e que há um adulto de verdade na área. Por sorte, o modo de debater e cuidar é também o modo de debater bem, sem a necessidade de ficar esperando ganhar likes ou os velhos oclinhos escuros.

David Moisés e Angela Minatti


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terça-feira, 10 de julho de 2018

Eles adoram um papo entre amigos






Eles acham engraçadinho quando você faz aquela voz de nenê, fina e fofa, mas nada os atrai mais do que ouvir a voz de outras crianças. Os pequenos que estão na fase pré-linguística, na chamada lalação, têm uma preferência evidente pelos sons vocais parecidos com os seus próprios balbucios, naquela combinação de altos tons e ressonâncias que só a molecada consegue produzir. A constatação foi feita num estudo* canadense, e ajuda a compreender melhor o desenvolvimento da linguagem falada.

A voz das crianças mostrou-se a mais capaz de capturar e manter a atenção dos pequenos, “provocando emoções positivas algumas vezes”, segundo Linda Polka, da Universidade McGill, em Quebec. “Isso pode ser um fator de motivação às crianças para vocalizarem mais.”

Na pesquisa, crianças na faixa dos 7 meses de idade demonstraram essa preferência quando ouviam diferentes sons produzidos por um sintetizador, simulando tons e ressonâncias de vozes masculinas e femininas em diferentes idades. Colocados diante de uma tela com o padrão de um tabuleiro de xadrez, os pequenos podiam fazer o som continuar, bastando apenas manter o olhar na tela, ou interrompê-lo, desviando o olhar.

O padrão vocal de crianças da mesma faixa etária foi o hit indiscutível, sem chance para o padrão dos adultos falando fininho. Ou seja, ninguém engana a molecada quando o babado é falar de igual pra igual. Eles curtem aquela babel silábica, talvez porque curtam a companhia dos seus colegas de fralda.

Nada disso significa que mamãe e papai devam abrir mão daquela conversa na língua dos pequenos. Essa conversa, com a busca de aproximação nos sons e nos sentimentos, é indispensável para o crescimento das crianças. O que o estudo acrescenta à rotina dos criadores de gente é a noção de que o contato com a galera da mesma idade pode ser importante.

Mas é bom ir com calma. O convívio com outras crianças é bacana, mas não dá pra transformar as manhãs dos nenês numa balada permanente. De 0 a 18 meses, aproximadamente, as crianças precisam de uma rotina caseira, calma, repetitiva, tediosa mesmo. A vida lá fora é uma aventura social que será melhor encarada a partir dos 2 anos.

Talvez um esquema adequado seja o das visitas pontuais e dos passeios ao sol, sempre procurando os mesmos lugares e pessoas. Essa repetitividade pode ser também um suporte para as conversas com os outros pré-falantes, fazendo a experiência ser ainda mais gratificante e enriquecedora.

* O estudo foi apresentado em maio de 2018 no 175º Encontro da Acoustical Society of America.

David Moisés e Angela Minatti

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A mesmice que faz bem ............... p.30



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