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segunda-feira, 8 de julho de 2024
quinta-feira, 2 de maio de 2019
Empresas ganham ao ajudar seus colaboradores a cuidar dos filhos
Não pense no Great Place to Work. Ok, eles vão premiar empresas brasileiras que têm boas políticas para colaboradores com filhos pequenos, mas pense agora somente nos ganhos de operação e de negócios que uma companhia tem ao dar apoio a mães e pais nos cuidados com suas crianças.
Mesmo que você seja um startupeiro cercado de millenials, sabe que a força da natureza logo vai chamá-los aos prazeres e deveres da parentalidade. Então aqueles temas de ambiente de trabalho e de equilíbrio entre vida pessoal e profissional ganham complexidade.
As empresas nos EUA perdem em média US$ 1.150 anuais por mãe ou pai trabalhador(a) com queda de produtividade e receita, assim como com custos de rescisão e novos recrutamentos. Isso dá um total de US$ 13 bilhões, segundo relatório publicado em setembro de 2018 pela ONG Ready Nation.
Por questões relacionadas às suas crianças, 63% desses colaboradores já tiveram de sair do trabalho mais cedo algum dia, 56% chegaram tarde no trampo, 55% nem foram e 54% ficaram distraídos em suas tarefas na firma, diz o estudo. Esses números mudam quando as empresas adotam políticas como horário flexível e reembolso de despesas com creche ou babá, por exemplo.
Melhora de índices
No caso da filial brasileira da seguradora Tokio Marine, a melhoria naqueles índices gerou uma queda da rotatividade de funcionários, de 21% em 2011 para 9,8% em 2017, segundo estudo da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e da United Way. O índice médio naquele setor é de 14,9%.
Se o custo da rotatividade varia entre 50% e 200% do salário anual de um empregado, a queda nesse índice representa um grande benefício, capaz de zerar a conta dos investimentos em apoio às mães e pais. Mas os benefícios vão além.
Quando sentem que seus filhos estão bem cuidados, com apoio da empresa, os colaboradores tendem a se sentir e se relacionar melhor no ambiente de trabalho, a valorizar e admirar a companhia, a se engajar mais na produção, tanto pela possibilidade de se concentrar quanto pela disposição de retribuir o apoio recebido, tendem a faltar menos e a manter o contrato por mais tempo. Além do ganho de produtividade e da retenção de talentos, essas políticas atraem bons profissionais e também clientes.
Cada companhia tem suas especificidades, e pode adotar benefícios de acordo com elas. Há aquelas que ampliam o tempo das licenças maternidade e paternidade, incluindo casos de adoção; há também creches (próprias, conveniadas ou reembolso) e berçários, espaços para lactação e para crianças na empresa, flexibilidade de jornada e de local de trabalho etc.
Informação e orientação
Mas há uma política que precisa ser adotada em todos os tipos de empresas: a informação e a orientação de mães e pais. Seja numa linha de produção industrial ou num co-working de programação de games, genitores de diferentes idades e fases de experiência precisam de suporte para compreender suas funções e, assim, cuidar melhor das crianças.
Cada um cria seus filhos como quer, sem dúvida, mas todo mundo precisa de informação sobre o desenvolvimento infantil e, principalmente, a relação do cuidado diário com a qualidade desse desenvolvimento. Não é fácil saber como lidar com os perrengues da rotina de modo que a molecada possa crescer sem tantas neuras, saudável nas suas capacidades emocionais e intelectuais.
Adultos que cuidam bem das suas crianças tendem a enfrentar menos problemas relacionados à saúde e ao comportamento delas. Esforçam-se muito, claro, mas colhem maior tranquilidade. Para isso, precisam saber coisas simples, como a importância de ler, cantar, conversar com os pequenos, olhar nos olhos, tocá-los com afeto, e também coisas mais complexas, como dar limites e lidar com birras ou revoltas de um modo benéfico.
Boletins e newsletters, TVs corporativas, cursos e oficinas etc são meios de levar essas informações e orientações aos colaboradores-cuidadores. A prática ainda é rara, mas o impacto é certeiro. E os inovadores nesse front podem, sim, pensar em ocupar um bom lugar no ranking das melhores empresas para trabalhar.
David Moisés
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O jeito de fazer as coisas com as crianças
quinta-feira, 18 de abril de 2019
Bullying é também um problema econômico
O bullying na escola tem efeitos negativos que vão além do menor desempenho acadêmico das vítimas. Um estudo com jovens de 25 anos aponta uma incidência de problemas de saúde mental 40% maior naqueles que sofreram diferentes tipos de assédio moral, opressão e agressão durante o ensino médio. Os danos também aumentam em 35% a chance de ficarem desempregados, e a renda dos que conseguem emprego tende a ser 2% menor que a de seus pares.
Quanto mais frequente e mais intenso o bullying, maior o impacto negativo sobre as vítimas. Segundo os pesquisadores, as práticas incluem apelidos ridicularizantes ou ofensivos, exclusão de grupos, ameaças e agressões. “O bullying tem efeitos nocivos não apenas no curto prazo, mas ao longo de muitos anos”, diz Emma Gorman, do Departamento de Economia da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, co-autora do trabalho.
A pesquisa usou dados confidenciais de 7 mil alunos, obtidos no Estudo Longitudinal sobre Jovens na Inglaterra. Eles foram entrevistados em intervalos regulares até os 21 anos e, por fim, aos 25, e metade reportou ter sofrido algum tipo de assédio ou agressão quando tinha entre 14 e 16 anos. “O bullying está disseminado nas escolas”, lembra a pesquisadora.
Os prejuízos à vida acadêmica, no presente e no futuro, já eram bastante conhecidos. O novo estudo reforça que as vítimas têm menor probabilidade de entrar e progredir no ensino superior, mas acrescenta a perspectiva da saúde mental e da vida profissional. “Trata-se de um tema importante de políticas públicas. (...) É preciso adotar uma abordagem mais objetiva para reduzir o bullying”, alerta Gorman.
David Moisés
segunda-feira, 18 de março de 2019
Como evitar novos massacres?
A gente quer saber por que alguém faz algo tão grotesco como aqueles dois rapazes que mataram 8 e feriram 11 pessoas indefesas numa manhã comum de verão em Suzano, em 13\3\2019. Quando essas tragédias acontecem, perguntar “por quê?” é uma tentativa inicial de chegar à resposta que mais interessa: como evitar que aconteça de novo. Porque ninguém quer estar à mercê da brutalidade aleatória, e porque ninguém quer se ver um dia no lugar dos familiares dos homicidas. Junto com a dor compartilhada e o luto, busca-se um rumo, uma imagem que recomponha o cenário estilhaçado pelo absurdo.
Quem tem filhos pequenos quer saber o que fazer para que adolescentes (os meus, os seus, os deles, os nossos) não se transformem naqueles matadores. No geral, essas tragédias suscitam debates sobre políticas de segurança, e é mesmo importante discutir o acesso a armas, o papel dos funcionários das escolas etc. Também há debates necessários sobre a cultura da violência nos filmes e games, no discurso (inclusive de autoridades) que legitima o uso da força letal, no bullying, nas artimanhas de grupos radicais que promovem crimes de ódio etc. Mães e pais têm muito interesse nesses temas, mas nenhum deles interessa tanto quanto as causas da evolução de uma criança à condição de autor de massacre.
A chave na infância
Evitar que essa evolução ocorra é a chave de todas as políticas, e sabe-se — até intuitivamente — que ela está no cotidiano das famílias, na rotina dos adultos que cuidam de crianças. A lógica é simples: se todos conseguirem apoiar adequadamente o desenvolvimento dos filhos, reduz-se a probabilidade de que os futuros adolescentes e adultos venham a representar riscos e perdas à comunidade. A partir daí, as políticas de segurança tendem a ser mais baratas e eficazes. Essa lógica é um raro consenso nesses tempos de polarização ideológica, está presente nos argumentos da esquerda, do centro e da direita.
Faz sentido pensar que a dupla de assassinos da escola Raul Brasil poderia ter tido um futuro melhor, se ambos tivessem desenvolvido algumas capacidades a partir da infância. Não se sabe exatamente quais fatores se alinharam para resultar na tragédia, mas é estatisticamente evidente que a dificuldade de se enturmar e de namorar, o assédio moral e até a depressão são causas insuficientes para se planejar e executar uma chacina seguida de suicídio. Alguma coisa, ou alguma falta, fez aqueles caras serem incapazes de lidar com os desafios do convívio, e parece tê-los levado à deep\dark web, onde psicopatas sem causa e terroristas apocalípticos dão plantão para manipular ressentimentos.
Estrutura emocional
Ser zoado no pátio é revoltante, ser gelado pela galera é terrível, sentir-se feio e não desejado é muito triste. Dá vontade de se vingar, de fazer sofrer e até de matar, sim. Quem cresceu num ambiente minimamente afetivo, com limites e suporte para construir uma estrutura emocional suficientemente sólida, também sofre nessas situações, sente raiva e pensa em vingança, mas consegue transformar esses impulsos e pensamentos em alguma nova perspectiva de vida. A capacidade de afeto (empatia, compaixão...) ajuda a processar o impulso de infligir sofrimento aos outros, mesmo sob frustração e dor. Porque a dor de fazer mal é maior, o mal turva o próprio bem-estar e reduz a felicidade.
A vida é dura para a grande maioria dos terráqueos, e injusta para muitos, mas é preciso estar doente, psíquica e\ou emocionalmente, para começar a achar que ela vale menos do que a morte. Essa condição pode surgir em qualquer idade, mas a resiliência e a capacidade de desejar, de fazer planos e perseguir seus sonhos, faz com que a maioria siga em frente, insistindo, experimentando, perdendo e ganhando — e chorando em solidariedade às vítimas de um massacre. Também essas competências são construídas na infância, na relação diária das crianças com os adultos que cuidam delas.
Trabalho com as crianças
Mas, se a questão é como evitar que outros adolescentes se entreguem às trevas, e se a chave da solução é o cuidado na infância, é necessário ir mais fundo e além daquela resposta padrão, tipo “tudo começa na família”. A ideia da “família estruturada” está longe de ser resposta para o desenvolvimento da empatia, da resiliência, da capacidade de desejar e trabalhar por seus sonhos, assim como de outras competências emocionais. Sejam casais comuns, sejam famílias com formatos diversos, sejam cuidadores dos filhos dos outros, todos precisam arregaçar as mangas e trabalhar arduamente nessa tarefa de criar seres humanos. Parece óbvio, mas não é.
Esse trabalho é difícil, chato e cansativo, porque ocorre justamente naquela peleja diária de choros, birras e traquinagens, na mesmice tediosa dos dois primeiros anos de vida dos bebês, na administração da rotina de sono, banhos e refeições da molecada, na lida com as explosões de raiva diante dos limites... Em muitas “famílias estruturadas” nem sempre há disposição para esse esforço. Troca-se limite por negociação, frustração por compensação, choro e revolta (“me poupe…”) por uma intelectualização precoce de crianças que se comportam bem hoje, mas que terão sérias dificuldades para lidar com os nãos apresentados pela vida. Por preguiça, comodidade, desconhecimento ou tudo junto, deixa-se que os pequenos cresçam sem passar pelas experiências necessárias para transformar seus impulsos primitivos em sentimentos.
Novos desafios para quem cuida
Em escala social, esses lapsos no cuidado às crianças podem ter impacto nas epidemias de obesidade e drogadição, na alta ocorrência de depressão e dependência de medicamentos, por exemplo. Adolescentes emocionalmente frágeis também estarão mais suscetíveis a relações tóxicas, e nelas inclui-se a submissão a grupos e líderes manipuladores. Não se trata de uma sentença de condenação, mas é evidentemente alta a probabilidade de uma evolução problemática para a adolescência e a vida adulta. Ainda mais quando cresce a oferta de drogas de rápida adicção, de incentivos ao uso de armas e de causas exóticas para justificar e facilitar a vingança suicida.
Esses desafios adicionais estão hoje na agenda de mães, pais e cuidadores de crianças — em todos os tipos de arranjo familiar —, e são grandes motivos para que assumam de fato suas funções. É indispensável que a evolução para a adolescência tenha uma perspectiva de crescimento e realização, que o adolescente crie para si um valor de vida suficiente para resistir aos obstáculos, às tristezas e iras, às seduções e manipulações, suficiente para atiçar a criatividade e dar-lhe forças para transformar sua realidade. Isso só é possível com a insubstituível ajuda dos adultos, em cada momento aparentemente banal da rotina com os pequenos.
David Moisés e Angela Minatti
Leia também no livro:
Limites para o futuro ………. p.47
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