A mãe que brinca, conversa, canta, conta historinha ou simplesmente fica com sua criança de um jeito atencioso e carinhoso tem o poder de transformá-la até no nível genético. E essa alteração no DNA faz com que a criança seja mais propensa a ser sociável. A primeira demonstração científica desse processo epigenético, envolvendo pequenos de até 1 ano e meio, foi publicada na edição de outubro/2019 da Science Advances. [ https://wp.me/pay7tX-6G ]
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terça-feira, 29 de outubro de 2019
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
Papai também precisa de pré-natal e apoio pós-parto
Num mundo em que as mulheres ainda ralam mais e ganham menos, parece um despropósito dizer que marmanjos também sofrem alterações no corpo durante a gestação dos filhos, e que podem até ter depressão pós-parto. Sem o barrigão, sem cataclisma hormonal e sem a bíblica dor-de-parto, por que eles mereceriam alguma atenção especial quando a mãe e o bebê precisam tanto de apoio? Bem, há uma resposta razoável, e não é apenas pra fazer média no Dia dos Pais.
[ Leia o texto completo em https://wp.me/pay7tX-6p ]
quinta-feira, 18 de abril de 2019
Bullying é também um problema econômico
O bullying na escola tem efeitos negativos que vão além do menor desempenho acadêmico das vítimas. Um estudo com jovens de 25 anos aponta uma incidência de problemas de saúde mental 40% maior naqueles que sofreram diferentes tipos de assédio moral, opressão e agressão durante o ensino médio. Os danos também aumentam em 35% a chance de ficarem desempregados, e a renda dos que conseguem emprego tende a ser 2% menor que a de seus pares.
Quanto mais frequente e mais intenso o bullying, maior o impacto negativo sobre as vítimas. Segundo os pesquisadores, as práticas incluem apelidos ridicularizantes ou ofensivos, exclusão de grupos, ameaças e agressões. “O bullying tem efeitos nocivos não apenas no curto prazo, mas ao longo de muitos anos”, diz Emma Gorman, do Departamento de Economia da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, co-autora do trabalho.
A pesquisa usou dados confidenciais de 7 mil alunos, obtidos no Estudo Longitudinal sobre Jovens na Inglaterra. Eles foram entrevistados em intervalos regulares até os 21 anos e, por fim, aos 25, e metade reportou ter sofrido algum tipo de assédio ou agressão quando tinha entre 14 e 16 anos. “O bullying está disseminado nas escolas”, lembra a pesquisadora.
Os prejuízos à vida acadêmica, no presente e no futuro, já eram bastante conhecidos. O novo estudo reforça que as vítimas têm menor probabilidade de entrar e progredir no ensino superior, mas acrescenta a perspectiva da saúde mental e da vida profissional. “Trata-se de um tema importante de políticas públicas. (...) É preciso adotar uma abordagem mais objetiva para reduzir o bullying”, alerta Gorman.
David Moisés
quarta-feira, 10 de abril de 2019
A vantagem do livro de papel
Ler um texto didático impresso no papel é significativamente melhor do que lê-lo numa
tela, tanto para crianças quanto para adultos. É o que conclui um estudo apresentado
nesta semana (6\4\19) na conferência anual da associação dos pesquisadores em educação
nos EUA, a AERA. As três principais constatações:
1 - a compreensão literal e interpretativa do texto didático é maior, em medida estatisticamente
significativa, quando lido no papel do que quanto lido na tela;
2 - quem lê na tela tende a pensar que está processando e compreendendo o texto didático
melhor do que realmente está;
3 - no caso de textos narrativos (não didáticos), não há diferença significativa entre as
performances de leitura no papel e na tela.
São evidências que podem contribuir para melhor orientar o uso dos recursos tecnológicos
nas aulas, estudos e tarefas das crianças. “É legítimo considerar que a leitura no papel
é melhor em termos de performance e eficiência”, sem qualquer acréscimo de esforço ou
de tempo, escreve a autora Virgínia Clinton, da Universidade de North Dakota. As causas
dessa diferença não foram analisadas.
A pesquisadora fez uma meta-análise de 33 estudos independentes publicados, em inglês, nos últimos dez anos. Esses trabalhos envolveram experimentos com 2.799 participantes, ora crianças, ora adultos, sempre avaliando a performance de leitura focada na compreensão de texto.
David Moisés
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
Cuidado com os brinquedos 'neurocientíficos'
Essa onda é agitada por empresas que estão ocupando o nicho dos brinquedos “neurocientíficos”. É legal alguém transformar o conhecimento científico avançado em produtos e serviços que melhoram a vida das pessoas, mas há sempre o risco de alguma coisa não funcionar. E há também o risco de empresas menos sérias saírem vendendo fórmulas mágicas para turbinar a genialidade da molecada, tudo com o selo da neurociência-para-o-dia-a-dia.
O “treinamento do cérebro” ou “treinamento cognitivo” vem ocupando espaço como uma das categorias de brinquedos e jogos infantis, e é nela que aparecem algumas fórmulas bem questionáveis. As pesquisadoras Brenna Hassinger-Das e Kathy Hirsh-Pasek compilaram os mais recentes estudos sobre a aprendizagem humana e constataram: o “brain training” é muito limitado em seus benefícios e em sua utilidade.
Primeiro, é importante lembrar que esse tipo de treinamento foi concebido para adultos, especialmente idosos. As pesquisas com esses indivíduos mostraram que eles melhoram as respostas específicas nas tarefas em que foram treinados. Só. Se você treina com um app para ter ganho de memória, você ganha memória apenas para execução de tarefas similares, mas não ganha velocidade de processamento de ideias; e vice versa. Assim, não dá pra dizer que o treinamento cognitivo vai aumentar sua inteligência, sua memória, sua habilidade de pensar etc.
Benefícios mais amplos para as crianças são obtidos com brinquedos, aplicativos e programas que extrapolam o simples treinamento e desafiam os pequenos em suas competências emocionais e cognitivas conjuntamente. Aí vale lembrar aqueles cinco critérios que caracterizam o potencial educativo dos jogos e brinquedos, com destaque especial para a interação humana. Embora possa haver ganhos eventuais de aprendizado num app solo, é na brincadeira coletiva que a molecada desenvolve mesmo suas múltiplas capacidades, segundo as pesquisas.
A tendência do mercado, porém, é ir no sentido contrário. Hassinger-Das e Hirsh-Pasek observam que o esforço das empresas está justamente em criar amiguinhos virtuais e outros recursos interativos para que cada criança possa passar mais tempo sozinha com seu tablet ou celular. E alertam que é preciso pesquisar mais as consequências desse “brain training” solitário sobre o cérebro dos pequenos.
A propósito, há um grande estudo longitudinal que está para ser divulgado nos EUA, tratando desse tema. As pesquisadoras não adiantam informações, mas uma entrevista na CBS News, em dezembro\2018, revelou alguns pontos importantes. Na entrevista, Gaya Dowling, do National Institutes of Health (NIH), disse que crianças de 9 e 10 anos…
- que passavam mais de sete horas por dia com tablets, smartphones e videogames apresentaram um afinamento prematuro do córtex, isto é, uma antecipação do processo de amadurecimento da área cerebral que processa informações dos cinco sentidos (Dowling ressalvou que ainda não se pode dizer se isso é bom ou ruim, e nem se o fenômeno decorre diretamente do uso de telas pelas crianças);
- que passavam mais de duas horas por dia diante de telas tiveram notas mais baixas em testes de raciocínio e linguagem.
O estudo do NIH entrevistou e escaneou 11 mil crianças durante uma década, em 21 pontos dos EUA, a um custo de US$ 300 milhões. Deve ser publicado neste começo de 2019. Quanto ao artigo de Hassinger-Das e Hirsh-Pasek, que nos guiou nestes três posts, foi publicado na edição de janeiro\2019 da revista Cerebrum, da Dana Foundation, que incentiva pesquisas sobre o cérebro.
David Moisés
Leia também:
Leia também no livro:
A regra do jogo entre pais e filhos..........p. 94
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
Brinquedos educativos (e outros nem tanto)
A categoria dos brinquedos de montar (block building) parece receber a melhor avaliação. Uma criança de 3 anos que brinca de montar blocos, dizem os estudos, mostra melhor consciência espacial, incluindo a habilidade de transformação espacial. Além disso, mostrará melhor compreensão matemática quando chegar ao ensino fundamental. Esses brinquedos ajudam a desenvolver capacidades relacionadas aos campos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.
Lego é considerado um bom modelo nessa categoria, por exigir da criança uma postura ativa e engajada, por envolver questões relacionados à vida real dos pequenos e permitir interação com outras pessoas. A criança faz rotação de peças, alinha e corrige bordas, observa formas etc. Nem sempre, porém, o Lego tem um objetivo pedagógico explícito.
Mega Blocks e Magna Tiles também são citados de modo positivo, enquanto King Arthur’s Castle é mencionado com uma qualidade adicional: ao montar o castelo, “com fosso” e tudo, os pequenos podem exercitar também habilidades de narrativa. Por fim, o jogo virtual de montagem de blocos Minecraft é elogiado pelas “possibilidades ilimitadas de experiências individuais” que “permitem aprender geometria espacial, linguagens, letramento e ecologia”, além de refinar habilidades de resolução de problemas.
Na categoria da combinação de peças (tile-matching) em tela digital, o app\programa Tetris também é reconhecido como educativo para crianças, por “aumentar habilidades de visualização espacial e rotação mental”.
Na categoria dos jogos de palavras, Scrabble Junior e Boggle Junior são citados pelas pesquisadoras como exercícios que melhoram o raciocínio fluido ou a velocidade do processamento das ideias, dependendo do tipo de operação que se faz no jogo. Neles, as crianças rearranjam as letras, dando formas mais sofisticadas às unidades de sentido das palavras. Além de contemplar os cinco critérios, apresentam também um “elemento competitivo que parece motivar o aprendizado e criar uma visão prazerosa em relação ao aprendizado”.
Na banda dos reprovados, as autoras dão exemplos de duas diversões ruinzinhas e de dois produtos que causam vergonha alheia. O primeiro é um app, vendido com apelo “educativo”, que se limita a expor algumas formas geométricas e solicitar que a criança aponte o quadrado, o círculo etc; daí, som de aplausos se ela acerta, ou um “tente de novo!” se ela erra. “Dificilmente inspira aprendizado”, avaliam.
Já o brinquedo de encaixe de formas geométricas com recursos eletrônicos, peca justamente pelos recursos eletrônicos: teclas de piano e botões com áudios tipo “pare”, “devagar” etc. A parafernália tec mais atrapalha do que ajuda. Os pais brincam muito mais com os pequenos, usando expressões espaciais tipo quadrado e triângulo, e acima ou abaixo, quando brincam de encaixe sem usar os botões, teclas e sons, segundo as pesquisadoras.
Já o brinquedo de encaixe de formas geométricas com recursos eletrônicos, peca justamente pelos recursos eletrônicos: teclas de piano e botões com áudios tipo “pare”, “devagar” etc. A parafernália tec mais atrapalha do que ajuda. Os pais brincam muito mais com os pequenos, usando expressões espaciais tipo quadrado e triângulo, e acima ou abaixo, quando brincam de encaixe sem usar os botões, teclas e sons, segundo as pesquisadoras.
Entrando na zona dos brinquedos falsamente educativos, desponta o iPotty, um peniquinho com suporte para tablet. Foi eleito o pior brinquedo do ano de 2013, nos EUA, pela campanha Infância Livre de Comércio. Sugerir que o nenê faça cocô ou xixi de olho num tablet é reforçar a ideia de que a criança precisa ser entretida a cada segundo do dia, mesmo quando vai ao banheiro. Isso, sem falar no impacto no processo de desfraldamento.
Por último, um game para crianças que teve de ser retirado do mercado, em maio de 2018. O LumiKids era tão fraco do ponto de vista educativo, que a empresa Lumosity precisou pagar US$ 2 milhões num processo por propaganda enganosa, pois “falhou em cumprir o que prometia”. Este vídeo de 2015 dá uma ideia do que rolava no joguinho.
David Moisés
[ No próximo post desta série: o que a ciência já descobriu sobre o treinamento cerebral com brinquedos e jogos ]
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
O que faz um brinquedo ser (ou não) educativo
O que faz um brinquedo, um aplicativo ou um software ser realmente educativo e contribuir para o desenvolvimento da criança? Esta pergunta é respondida num artigo que acabou de sair (janeiro\2019). Nele, duas pesquisadoras de universidades dos EUA organizam as mais recentes informações de estudos científicos sobre o processo de aprendizado humano e os chamados “brain training” para crianças.
Segundo Brenna Hassinger-Das e Kathy Hirsh-Pasek, podem ser considerados efetivamente
Segundo Brenna Hassinger-Das e Kathy Hirsh-Pasek, podem ser considerados efetivamente
educativos os brinquedos, apps e programas que
1 - requerem da criança um processo ativo, e não passivo;
2 - requerem atenção e engajamento, ou seja, não são uma distração para a criança;
3 - envolvem temas e questões do dia a dia da criança, que fazem sentido para ela;
4 - requerem interação humana, sem atividades solo;
5 - têm um claro propósito de aprendizado.
Levando em conta estas cinco características aferíveis, é mais fácil saber o que procurar e
o que evitar na seção dos “pedagógicos” das lojas.
O mais interessante no artigo, porém, é a constatação de que existe uma característica crucial entre aquelas cinco. As autoras observam que a (4) interação humana é o “elemento crítico” do desenvolvimento de capacidades via brinquedos, apps e programas. Por esta razão, deram ao artigo o título “Brain training for kids: adding a human touch”.
Entre os estudos analisados, as pesquisadoras citam um que foi feito com crianças de 2 anos: quando engajadas numa conversação fluida, tanto presencial quanto via videoconferência, elas aprenderam perfeitamente duas novas palavras que lhes foram apresentadas; mas quando essas palavras foram apresentadas num vídeo, sem interação, o aprendizado foi nitidamente inferior.
A interação humana tem uma função no próprio desenvolvimento cerebral, segundo as pesquisas. Ajuda a desenvolver o chamado controle proativo, resultado de “mecanismos neurais no córtex pré-frontal, que colhem informações do ambiente e permitem inferir o que deve acontecer em seguida”. O suporte do adulto, ou ao menos de uma pessoa mais madura que a criança, seria o motor desse mecanismo, com interações que permitem trocas divertidas, que favorecem o aprendizado.
“Se os humanos aprendem por meio de um cérebro socialmente sensível, e há muitas evidências disso, então o melhor treinamento cerebral para crianças deve ser por meio da interação humano-humano”, escrevem as autoras, acrescentando uma observação: é justamente essa interação que é “tipicamente sacrificada” quando a criança se senta sozinha com um “brinquedo de treinamento cerebral”.
David Moisés
[ No próximo post, as constatações das autoras do estudo sobre alguns brinquedos, apps e softwares educativos ]
terça-feira, 10 de julho de 2018
Eles adoram um papo entre amigos
Eles acham engraçadinho quando você faz aquela voz de nenê, fina e fofa, mas nada os atrai mais do que ouvir a voz de outras crianças. Os pequenos que estão na fase pré-linguística, na chamada lalação, têm uma preferência evidente pelos sons vocais parecidos com os seus próprios balbucios, naquela combinação de altos tons e ressonâncias que só a molecada consegue produzir. A constatação foi feita num estudo* canadense, e ajuda a compreender melhor o desenvolvimento da linguagem falada.
A voz das crianças mostrou-se a mais capaz de capturar e manter a atenção dos pequenos, “provocando emoções positivas algumas vezes”, segundo Linda Polka, da Universidade McGill, em Quebec. “Isso pode ser um fator de motivação às crianças para vocalizarem mais.”
Na pesquisa, crianças na faixa dos 7 meses de idade demonstraram essa preferência quando ouviam diferentes sons produzidos por um sintetizador, simulando tons e ressonâncias de vozes masculinas e femininas em diferentes idades. Colocados diante de uma tela com o padrão de um tabuleiro de xadrez, os pequenos podiam fazer o som continuar, bastando apenas manter o olhar na tela, ou interrompê-lo, desviando o olhar.
O padrão vocal de crianças da mesma faixa etária foi o hit indiscutível, sem chance para o padrão dos adultos falando fininho. Ou seja, ninguém engana a molecada quando o babado é falar de igual pra igual. Eles curtem aquela babel silábica, talvez porque curtam a companhia dos seus colegas de fralda.
Nada disso significa que mamãe e papai devam abrir mão daquela conversa na língua dos pequenos. Essa conversa, com a busca de aproximação nos sons e nos sentimentos, é indispensável para o crescimento das crianças. O que o estudo acrescenta à rotina dos criadores de gente é a noção de que o contato com a galera da mesma idade pode ser importante.
Mas é bom ir com calma. O convívio com outras crianças é bacana, mas não dá pra transformar as manhãs dos nenês numa balada permanente. De 0 a 18 meses, aproximadamente, as crianças precisam de uma rotina caseira, calma, repetitiva, tediosa mesmo. A vida lá fora é uma aventura social que será melhor encarada a partir dos 2 anos.
Talvez um esquema adequado seja o das visitas pontuais e dos passeios ao sol, sempre procurando os mesmos lugares e pessoas. Essa repetitividade pode ser também um suporte para as conversas com os outros pré-falantes, fazendo a experiência ser ainda mais gratificante e enriquecedora.
* O estudo foi apresentado em maio de 2018 no 175º Encontro da Acoustical Society of America.
David Moisés e Angela Minatti
Leia também no livro:
A mesmice que faz bem ............... p.30
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quinta-feira, 3 de maio de 2018
O cuidado afetivo ilumina o cérebro das crianças
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| Não basta falar, é fundamental ouvir, compreender, trocar |
O estudo de pesquisadores dos EUA (Harvard, Pennsylvania e MIT), publicado em fevereiro de 2018, confirma constatações feitas há algum tempo em áreas de pesquisa do desenvolvimento infantil, especialmente a Psicologia. De modo geral, sabe-se que o cuidado afetivo é condição para que a criança construa uma estrutura psíquica e emocional capaz de sustentar seu crescimento como pessoa.
O foco desse estudo está no impacto do diálogo apenas sobre as capacidades de linguagem e letramento das crianças. Os pesquisadores não tinham uma perspectiva do desenvolvimento infantil integral. Mas pode-se ler de forma mais ampla essa relação causal entre a qualidade da "conversa" e o efeito cerebral específico.
Segundo a equipe, quanto mais os adultos falavam e ouviam, e quanto mais as crianças ouviam e falavam, ou seja, quanto mais diálogo ocorria (conversational turns), maior era o benefício. Portanto, não basta falar qualquer coisa com os pequenos, é preciso olhar nos olhos, dar atenção, compreender, buscar ser compreendido, trocar, estar efetivamente junto com eles.
Assim é o cuidado afetivo. Pode-se considerar que o adulto que dialoga com a criança é aquele que estabelece com ela uma relação de afeto, que está atento às suas necessidades e lhe dá suporte. Um adulto que só fala, que diz qualquer coisa quando quer, ou que simplesmente deixa a criança ouvindo a conversa dos grandes não pode ser considerado um cuidador presente.
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| Neuroimagem mostra ativação em sulcos temporais |
Essa perspectiva mais ampla ajuda a evitar algumas conclusões precipitadas e prejudiciais sobre aqueles dados científicos. Por exemplo, a "conversa de qualidade" dos pais com os filhos não deve ser confundida com uma falação intelectualizada para desenvolver as capacidades linguísticas dos geniozinhos. Isso não seria um diálogo afetivo, e sim um treinamento com alta probabilidade de fracasso.
Dialogar com as crianças tampouco é dar explicações sobre a necessidade de largar o celular e ir pro banho, ou sobre a importância de papar tudo "pra ficar forte". Quer dizer, dar limites aos pequenos continua sendo indispensável.
Numa entrevista recente, Meredith Rowe, uma das autoras do estudo, afirmou que os pais deveriam "desafiar" as crianças a falar, "estimulá-las" a contar como foi seu dia e o que planejam para o dia seguinte... Como se vê, a própria pesquisadora tirou conclusões precipitadas e simplistas de seus bons dados científicos, embalada pela mania perigosa dos "estímulos".
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| Conversa de qualidade não é falação intelectualizada nem treinamento linguístico; melhor é o diálogo sobre sentimentos |
A boa conversa com a molecada é sobre sentimentos, porque é essa a matéria que eles estão trabalhando constantemente. É um papo em que o adulto começa falando das suas sensações ("que saudade!", "que legal isso!", "hoje levei um susto...", "eu tinha medo daquilo quando era pequeno" etc) e abre espaço para ouvir e acolher tudo o que brotar da criança, em balbucios, palavras, expressões e gestos.
Quando os pequenos percebem que podem expressar o que sentem, sem críticas, instruções ou panos-quentes, ficam mais seguros para processar os sentimentos brutos que assolam a infância. Ao construir uma plataforma psíquica e emocional sólida, é natural que a capacidade cognitiva floresça com vigor. Faz sentido, portanto, ver esse brilho no cérebro das crianças cuidadas por adultos afetivos.
David Moisés e Angela Minatti
Leia também no livro:
Pós-graduação para crianças ............... p.246
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