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quarta-feira, 10 de abril de 2019

A vantagem do livro de papel



Ler um texto didático impresso no papel é significativamente melhor do que lê-lo numa
tela, tanto para crianças quanto para adultos. É o que conclui um estudo apresentado
nesta semana (6\4\19) na conferência anual da associação dos pesquisadores em educação
nos EUA, a AERA. As três principais constatações:

1 - a compreensão literal e interpretativa do texto didático é maior, em medida estatisticamente
significativa, quando lido no papel do que quanto lido na tela;

2 - quem lê na tela tende a pensar que está processando e compreendendo o texto didático
melhor do que realmente está;

3 - no caso de textos narrativos (não didáticos), não há diferença significativa entre as
performances de leitura no papel e na tela.

São evidências que podem contribuir para melhor orientar o uso dos recursos tecnológicos
nas aulas, estudos e tarefas das crianças. “É legítimo considerar que a leitura no papel
é melhor em termos de performance e eficiência”, sem qualquer acréscimo de esforço ou
de tempo, escreve a autora Virgínia Clinton, da Universidade de North Dakota. As causas
dessa diferença não foram analisadas.

A pesquisadora fez uma meta-análise de 33 estudos independentes publicados, em inglês, nos últimos dez anos. Esses trabalhos envolveram experimentos com 2.799 participantes, ora crianças, ora adultos, sempre avaliando a performance de leitura focada na compreensão de texto.


David Moisés



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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Cuidado com os brinquedos 'neurocientíficos'


Nos dois posts anteriores, você ficou sabendo quais são as características fundamentais de um brinquedo realmente educativo, e viu o que dizem especialistas sobre alguns exemplos de brinquedos, aplicativos e softwares oferecidos no mercado. Este último post da série trata das descobertas científicas sobre o impacto dos jogos educativos no aprendizado das crianças. Saber um pouco dessas coisas é importante pra gente não entrar ingenuamente na onda do “brain training” infantil.

Essa onda é agitada por empresas que estão ocupando o nicho dos brinquedos “neurocientíficos”. É legal alguém transformar o conhecimento científico avançado em produtos e serviços que melhoram a vida das pessoas, mas há sempre o risco de alguma coisa não funcionar. E há também o risco de empresas menos sérias saírem vendendo fórmulas mágicas para turbinar a genialidade da molecada, tudo com o selo da neurociência-para-o-dia-a-dia.



O “treinamento do cérebro” ou “treinamento cognitivo” vem ocupando espaço como uma das categorias de brinquedos e jogos infantis, e é nela que aparecem algumas fórmulas bem questionáveis. As pesquisadoras Brenna Hassinger-Das e Kathy Hirsh-Pasek compilaram os mais recentes estudos sobre a aprendizagem humana e constataram: o “brain training” é muito limitado em seus benefícios e em sua utilidade.

Primeiro, é importante lembrar que esse tipo de treinamento foi concebido para adultos, especialmente idosos. As pesquisas com esses indivíduos mostraram que eles melhoram as respostas específicas nas tarefas em que foram treinados. Só. Se você treina com um app para ter ganho de memória, você ganha memória apenas para execução de tarefas similares, mas não ganha velocidade de processamento de ideias; e vice versa. Assim, não dá pra dizer que o treinamento cognitivo vai aumentar sua inteligência, sua memória, sua habilidade de pensar etc.

Benefícios mais amplos para as crianças são obtidos com brinquedos, aplicativos e programas que extrapolam o simples treinamento e desafiam os pequenos em suas competências emocionais e cognitivas conjuntamente. Aí vale lembrar aqueles cinco critérios que caracterizam o potencial educativo dos jogos e brinquedos, com destaque especial para a interação humana. Embora possa haver ganhos eventuais de aprendizado num app solo, é na brincadeira coletiva que a molecada desenvolve mesmo suas múltiplas capacidades, segundo as pesquisas.


A tendência do mercado, porém, é ir no sentido contrário. Hassinger-Das e Hirsh-Pasek observam que o esforço das empresas está justamente em criar amiguinhos virtuais e outros recursos interativos para que cada criança possa passar mais tempo sozinha com seu tablet ou celular. E alertam que é preciso pesquisar mais as consequências desse “brain training” solitário sobre o cérebro dos pequenos.

A propósito, há um grande estudo longitudinal que está para ser divulgado nos EUA, tratando desse tema. As pesquisadoras não adiantam informações, mas uma entrevista na CBS News, em dezembro\2018, revelou alguns pontos importantes. Na entrevista, Gaya Dowling, do National Institutes of Health (NIH), disse que crianças de 9 e 10 anos…

  • que passavam mais de sete horas por dia com tablets, smartphones e videogames apresentaram um afinamento prematuro do córtex, isto é, uma antecipação do processo de amadurecimento da área cerebral que processa informações dos cinco sentidos (Dowling ressalvou que ainda não se pode dizer se isso é bom ou ruim, e nem se o fenômeno decorre diretamente do uso de telas pelas crianças);
  • que passavam mais de duas horas por dia diante de telas tiveram notas mais baixas em testes de raciocínio e linguagem.

O estudo do NIH entrevistou e escaneou 11 mil crianças durante uma década, em 21 pontos dos EUA, a um custo de US$ 300 milhões. Deve ser publicado neste começo de 2019. Quanto ao artigo de Hassinger-Das e Hirsh-Pasek, que nos guiou nestes três posts, foi publicado na edição de janeiro\2019 da revista Cerebrum, da Dana Foundation, que incentiva pesquisas sobre o cérebro.



David Moisés

Leia também:

Leia também no livro:
A regra do jogo entre pais e filhos..........p. 94


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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Brinquedos educativos (e outros nem tanto)


Há um número razoável de brinquedos, aplicativos e sotwares que podem ser honestamente considerados educativos. As pesquisadoras Brenna Hassinger-Das e Kathy Hirsh-Pasek fizeram uma meta-análise usando aqueles cinco critérios que caracterizam o potencial pedagógico dos produtos à venda, e escreveram sobre alguns deles. Nem todos estão nas lojas brasileiras, mas quase sempre há similares.

A categoria dos brinquedos de montar (block building) parece receber a melhor avaliação. Uma criança de 3 anos que brinca de montar blocos, dizem os estudos, mostra melhor consciência espacial, incluindo a habilidade de transformação espacial. Além disso, mostrará melhor compreensão matemática quando chegar ao ensino fundamental. Esses brinquedos ajudam a desenvolver capacidades relacionadas aos campos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.



Lego é considerado um bom modelo nessa categoria, por exigir da criança uma postura ativa e engajada, por envolver questões relacionados à vida real dos pequenos e permitir interação com outras pessoas. A criança faz rotação de peças, alinha e corrige bordas, observa formas etc. Nem sempre, porém, o Lego tem um objetivo pedagógico explícito.

Mega Blocks e Magna Tiles também são citados de modo positivo, enquanto King Arthur’s Castle é mencionado com uma qualidade adicional: ao montar o castelo, “com fosso” e tudo, os pequenos podem exercitar também habilidades de narrativa. Por fim, o jogo virtual de montagem de blocos Minecraft é elogiado pelas “possibilidades ilimitadas de experiências individuais” que “permitem aprender geometria espacial, linguagens, letramento e ecologia”, além de refinar habilidades de resolução de problemas.



Na categoria da combinação de peças (tile-matching) em tela digital, o app\programa Tetris também é reconhecido como educativo para crianças, por “aumentar habilidades de visualização espacial e rotação mental”.

Na categoria dos jogos de palavras, Scrabble Junior e Boggle Junior são citados pelas pesquisadoras como exercícios que melhoram o raciocínio fluido ou a velocidade do processamento das ideias, dependendo do tipo de operação que se faz no jogo. Neles, as crianças rearranjam as letras, dando formas mais sofisticadas às unidades de sentido das palavras. Além de contemplar os cinco critérios, apresentam também um “elemento competitivo que parece motivar o aprendizado e criar uma visão prazerosa em relação ao aprendizado”.

Na banda dos reprovados, as autoras dão exemplos de duas diversões ruinzinhas e de dois produtos que causam vergonha alheia. O primeiro é um app, vendido com apelo “educativo”, que se limita a expor algumas formas geométricas e solicitar que a criança aponte o quadrado, o círculo etc; daí, som de aplausos se ela acerta, ou um “tente de novo!” se ela erra. “Dificilmente inspira aprendizado”, avaliam.
Já o brinquedo de encaixe de formas geométricas com recursos eletrônicos, peca justamente pelos recursos eletrônicos: teclas de piano e botões com áudios tipo “pare”, “devagar” etc. A parafernália tec mais atrapalha do que ajuda. Os pais brincam muito mais com os pequenos, usando expressões espaciais tipo quadrado e triângulo, e acima ou abaixo, quando brincam de encaixe sem usar os botões, teclas e sons, segundo as pesquisadoras.






Entrando na zona dos brinquedos falsamente educativos, desponta o iPotty, um peniquinho com suporte para tablet. Foi eleito o pior brinquedo do ano de 2013, nos EUA, pela campanha Infância Livre de Comércio. Sugerir que o nenê faça cocô ou xixi de olho num tablet é reforçar a ideia de que a criança precisa ser entretida a cada segundo do dia, mesmo quando vai ao banheiro. Isso, sem falar no impacto no processo de desfraldamento.

Por último, um game para crianças que teve de ser retirado do mercado, em maio de 2018. O LumiKids era tão fraco do ponto de vista educativo, que a empresa Lumosity precisou pagar US$ 2 milhões num processo por propaganda enganosa, pois “falhou em cumprir o que prometia”. Este vídeo de 2015 dá uma ideia do que rolava no joguinho.


David Moisés

[ No próximo post desta série: o que a ciência já descobriu sobre o treinamento cerebral com brinquedos e jogos ]


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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O que faz um brinquedo ser (ou não) educativo



O que faz um brinquedo, um aplicativo ou um software ser realmente educativo e contribuir para o desenvolvimento da criança? Esta pergunta é respondida num artigo que acabou de sair (janeiro\2019). Nele, duas pesquisadoras de universidades dos EUA organizam as mais recentes informações de estudos científicos sobre o processo de aprendizado humano e os chamados “brain training” para crianças.
Segundo Brenna Hassinger-Das e Kathy Hirsh-Pasek, podem ser considerados efetivamente
educativos os brinquedos, apps e programas que
1 - requerem da criança um processo ativo, e não passivo;
2 - requerem atenção e engajamento, ou seja, não são uma distração para a criança;
3 - envolvem temas e questões do dia a dia da criança, que fazem sentido para ela;
4 - requerem interação humana, sem atividades solo;
5 - têm um claro propósito de aprendizado.
Levando em conta estas cinco características aferíveis, é mais fácil saber o que procurar e o que evitar na seção dos “pedagógicos” das lojas.

O mais interessante no artigo, porém, é a constatação de que existe uma característica crucial entre aquelas cinco. As autoras observam que a (4) interação humana é o “elemento crítico” do desenvolvimento de capacidades via brinquedos, apps e programas. Por esta razão, deram ao artigo o título “Brain training for kids: adding a human touch”.


Entre os estudos analisados, as pesquisadoras citam um que foi feito com crianças de 2 anos: quando engajadas numa conversação fluida, tanto presencial quanto via videoconferência, elas aprenderam perfeitamente duas novas palavras que lhes foram apresentadas; mas quando essas palavras foram apresentadas num vídeo, sem interação, o aprendizado foi nitidamente inferior.

A interação humana tem uma função no próprio desenvolvimento cerebral, segundo as pesquisas. Ajuda a desenvolver o chamado controle proativo, resultado de “mecanismos neurais no córtex pré-frontal, que colhem informações do ambiente e permitem inferir o que deve acontecer em seguida”. O suporte do adulto, ou ao menos de uma pessoa mais madura que a criança, seria o motor desse mecanismo, com interações que permitem trocas divertidas, que favorecem o aprendizado.

“Se os humanos aprendem por meio de um cérebro socialmente sensível, e há muitas evidências disso, então o melhor treinamento cerebral para crianças deve ser por meio da interação humano-humano”, escrevem as autoras, acrescentando uma observação: é justamente essa interação que é “tipicamente sacrificada” quando a criança se senta sozinha com um “brinquedo de treinamento cerebral”.

David Moisés

[ No próximo post, as constatações das autoras do estudo sobre alguns brinquedos, apps e softwares educativos ]


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