quinta-feira, 3 de maio de 2018

O cuidado afetivo ilumina o cérebro das crianças

A tecnologia da ressonância magnética forneceu a primeira evidência "material" de que as crianças sob cuidados afetivos desenvolvem melhor suas capacidades de linguagem. Pesquisadores constataram que a qualidade da "conversa" entre adultos e crianças está diretamente relacionada a uma maior ativação, nos pequenos, das áreas cerebrais relacionadas ao processo de linguagem.

Não basta falar, é fundamental
ouvir, compreender, trocar
A interação atenciosa, falando à criança e ouvindo-a, acolhendo suas palavras, sons e expressões, reflete-se na própria estrutura cerebral, sobretudo na primeira infância (0 a 6 anos de idade). O impacto positivo ocorre independentemente das condições socioeconômicas em que vivem os pequenos. E as "conversas" são benéficas mesmo antes de os bebês aprenderem a falar.

O estudo de pesquisadores dos EUA (Harvard, Pennsylvania e MIT), publicado em fevereiro de 2018, confirma constatações feitas há algum tempo em áreas de pesquisa do desenvolvimento infantil, especialmente a Psicologia. De modo geral, sabe-se que o cuidado afetivo é condição para que a criança construa uma estrutura psíquica e emocional capaz de sustentar seu crescimento como pessoa.

O foco desse estudo está no impacto do diálogo apenas sobre as capacidades de linguagem e letramento das crianças. Os pesquisadores não tinham uma perspectiva do desenvolvimento infantil integral. Mas pode-se ler de forma mais ampla essa relação causal entre a qualidade da "conversa" e o efeito cerebral específico.

Segundo a equipe, quanto mais os adultos falavam e ouviam, e quanto mais as crianças ouviam e falavam, ou seja, quanto mais diálogo ocorria (conversational turns), maior era o benefício. Portanto, não basta falar qualquer coisa com os pequenos, é preciso olhar nos olhos, dar atenção, compreender, buscar ser compreendido, trocar, estar efetivamente junto com eles.

Assim é o cuidado afetivo. Pode-se considerar que o adulto que dialoga com a criança é aquele que estabelece com ela uma relação de afeto, que está atento às suas necessidades e lhe dá suporte. Um adulto que só fala, que diz qualquer coisa quando quer, ou que simplesmente deixa a criança ouvindo a conversa dos grandes não pode ser considerado um cuidador presente.


Neuroimagem mostra ativação em sulcos temporais

Essa perspectiva mais ampla ajuda a evitar algumas conclusões precipitadas e prejudiciais sobre aqueles dados científicos. Por exemplo, a "conversa de qualidade" dos pais com os filhos não deve ser confundida com uma falação intelectualizada para desenvolver as capacidades linguísticas dos geniozinhos. Isso não seria um diálogo afetivo, e sim um treinamento com alta probabilidade de fracasso.

Dialogar com as crianças tampouco é dar explicações sobre a necessidade de largar o celular e ir pro banho, ou sobre a importância de papar tudo "pra ficar forte". Quer dizer, dar limites aos pequenos continua sendo indispensável.

Numa entrevista recente, Meredith Rowe, uma das autoras do estudo, afirmou que os pais deveriam "desafiar" as crianças a falar, "estimulá-las" a contar como foi seu dia e o que planejam para o dia seguinte... Como se vê, a própria pesquisadora tirou conclusões precipitadas e simplistas de seus bons dados científicos, embalada pela mania perigosa dos "estímulos".



Conversa de qualidade não é falação intelectualizada nem
treinamento linguístico; melhor é o diálogo sobre sentimentos

A boa conversa com a molecada é sobre sentimentos, porque é essa a matéria que eles estão trabalhando constantemente. É um papo em que o adulto começa falando das suas sensações ("que saudade!", "que legal isso!", "hoje levei um susto...", "eu tinha medo daquilo quando era pequeno" etc) e abre espaço para ouvir e acolher tudo o que brotar da criança, em balbucios, palavras, expressões e gestos.

Quando os pequenos percebem que podem expressar o que sentem, sem críticas, instruções ou panos-quentes, ficam mais seguros para processar os sentimentos brutos que assolam a infância. Ao construir uma plataforma psíquica e emocional sólida, é natural que a capacidade cognitiva floresça com vigor. Faz sentido, portanto, ver esse brilho no cérebro das crianças cuidadas por adultos afetivos.


David Moisés  e  Angela Minatti


Leia também no livro:
Pós-graduação para crianças ............... p.246



CLIQUE para adquirir seu livro:

((( 11 976 303 862 ))) whatsapp
((( prepareomundo@gmail.com ))) e-mail


sábado, 20 de janeiro de 2018

Hora de conversar sobre o terror




A gente não gosta de falar dessas coisas com as crianças, mas é importante ter um tempo com elas pra conversar sobre o que veem e ouvem dos atentados terroristas, das balas perdidas e execuções, do risco de um conflito nuclear e outras loucuras desse tipo. Mesmo quando protegidos do noticiário (que às vezes supera a ficção em dramas absurdos), os pequenos percebem muito bem os fragmentos das informações e o clima ruim. Quando expostos às telinhas, então, a aflição dispara.

Às vezes eles fazem perguntas, às vezes eles ficam soturnos ou agressivos enquanto esses assuntos quicam nas cabecinhas à procura de um ponto de encaixe, uma forma de expressão, um modelo de explicação. As perguntas são às vezes incômodas, porque os adultos também se sentem angustiados e à procura de explicação para tanta estupidez. Então é preciso dar conta do próprio mal-estar e também do mal-estar da molecada. Tem de respirar fundo e encarar o tema, seja respondendo ou chamando pra conversa.

E nem sempre a conversa começa com um papo direto. Pais atentos percebem quando o tema surge nas brincadeiras, nas situações da rotina, nos desenhos e rabiscos… É hora de parar tudo (mesmo: jobs, chefe, sua série preferida etc, tudo fica pra depois) e voltar toda a atenção aos pensamentos e sentimentos que estão aparecendo naquele momento. É hora de ouvir e acolher o que as crianças conseguem expressar, sem críticas nem explicações, dando corda, deixando sair.

Ouvir e acolher não é apenas um gesto de gente grande, é também um jeito honesto de mostrar que também os adultos estão preocupados, que reconhecem os medos dos pequenos e sentem alguns medos parecidos. Essa é uma mensagem clara de que o mal-estar não é um problema particular deles, que seus sentimentos são verdadeiros e legítimos, que mães, pais e demais cuidadores compreendem e podem confortá-los em alguma medida. Podemos sentir medo juntos, e ter esperança juntos.

Não é possível prometer que tudo vai melhorar - nem crianças acreditam nesse tipo de promessa. A realidade é sempre cheia de desafios e perigos. Não dá pra negar que botões nucleares nas mãos de Trump e Kim Jong-un, dois meninos mimados e sem limites, põem em alto risco a vida no planeta (principalmente quando Trump diz que seu botão é “maior”). É impossível prever até onde irá a criatividade hedionda dos grupos terroristas, e até quando a guerra civil brasileira será negligenciada pelas autoridades.




A resposta que se pode dar às crianças é a da solidariedade. Mas não pode ser uma solidariedade conformista ou passiva. Elas precisam sentir que não estão sós na sua aflição e saber que há muitas pessoas trabalhando, todos os dias, para enfrentar esses problemas. É um trabalho difícil, demorado, mas que vem sendo feito por pessoas e instituições muito competentes e fortes, que conseguem ir melhorando algumas coisas. E isso é real.

É necessário deixar claro que esse trabalho é dos adultos. Cabe aos adultos cuidar do mundo e lidar com os outros adultos que criam problemas. Os pequenos têm de saber que, enquanto travam a batalha do seu próprio crescimento, podem contar com os grandes no combate aos monstros da ganância e do ódio, que teimam em sair das trevas para assustar a humanidade. E isso precisa ser verdade.

David Moisés e Angela Minatti


Leia também no livro:
Histórias de monstros reais .................... p.273



CLIQUE para adquirir seu livro:
((( 11 976 303 862 ))) whatsapp

((( prepareomundo@gmail.com ))) e-mail

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Contos de fadas não podem ser moderninhos




Existem histórias para crianças, e existem os contos de fadas.

Você encontra por aí, fácil, uma literatura infantil razoavelmente grande, com ótimas opções de autores e títulos, mas não dá pra pensar que a clássica Chapeuzinho Vermelho possa ser simplesmente atualizada numa garota descolada e destemida, ou que o lobo-mau possa virar vítima de porquinhos pestinhas. Não funciona assim - ou melhor: assim, não funciona.

Contos de fadas não são mero entretenimento, nem seu valor se resume à qualidade da prosa ou das sacadas de seus redatores. São histórias de encantamento e magia elaboradas por sucessivas gerações, ao longo de séculos, adquirindo formas e sentidos condizentes com as culturas a que servem. São narrativas com as quais as comunidades podem falar a suas crianças sobre os sentimentos brutos que elas sentem, e que precisam ser lapidados.




O ódio, a inveja, a paixão possessiva, a vontade egoísta, despótica e imediatista estão entre os sentimentos crus que movem os personagens dos contos de fadas, mesmo aqueles que parecem mais fofos ou engraçadinhos. É isso o que conta para as crianças, que estão justamente no maior esforço para processar seus sentimentos primitivos e se humanizar.

Tem alguma coisa de moralidade nessas narrativas, mas isso nem é o que mais importa, e sim os sentimentos e os conflitos aos quais eles levam. Também tem modelos de (mau) comportamento nesses contos, mas não se trata só de ensinar que uma casa feita de doces, no meio da floresta, é certamente uma armadilha, nem que não se deve sair sozinho numa mata desconhecida.


O que os pequenos querem compreender é por que, raios, João e Maria são seduzidos tão facilmente por aquela construção doce e sinistra naquele bosque tenebroso, ou porque Chapeuzinho Vermelho não percebe que é perigoso sair sozinha onde tem lobos… E por que os adultos que deveriam cuidar daquelas crianças ali são tão ingênuos, maus, perversos…

A revolta com a ruindade das bruxas, o medo dos bichos, a tristeza com o abandono e o sofrimento, o nojo dos sapos etc ativam a usina que amadurece os sentimentos. Estando no mundo fantástico do era-uma-vez, a uma distância segura, esses infernos bem conhecidos podem ser olhados atentamente pelos pequenos, que pedem bis - para poder processar e reprocessar o que sentem.

Se o lobo é bobo, se a bruxa não é cruel, se nada trágico acontece aos personagens da história, perde-se o efeito de ebulição dos sentimentos. Uma Branca de Neve feminista ou mandona pode ser uma ótima personagem, mas para adolescentes que já conhecem essa praia, que puderam lapidar seus sentimentos na infância e sabem da narrativa original para identificar o que é engraçado na paródia. Para as crianças, Branca de Neve precisa ser aquela doce vítima de uma trama sórdida.




Versões adocicadas dos contos de fada também não oferecem aos pequenos o mesmo componente de elaboração e amadurecimento. Já houve adaptação suficiente ao longo dos séculos, quando as historinhas para adultos foram perdendo as referências explícitas a estupros e coisas desse tipo. O que sobrou nas versões dos séculos 18 e 19 é suficiente para não chocar as crianças e, ao mesmo tempo mobilizar as emoções.

Versões como a dos irmãos Grimm têm a vantagem de manter a tragicidade das narrativas e, ao mesmo tempo, apresentar desfechos redentores para os pequenos heróis. Chapeuzinho erra, mas tem uma chance de aprender com o erro, ao ser retirada vivinha da barriga do lobo. Para os adultos maus, ao contrário, o destino é o martírio eterno.


No fim da história, algum adulto cuidador aparece e devolve o senso de humanidade à situação, ou o próprio amadurecimento das personagens conduz a uma solução do problema. O felizes-para-sempre não significa o prazer e a alegria ad infinitum, mas um estado de normalidade que não sucumbirá mais à selvageria.

Na voz afetuosa dos pais que contam, esses contos adquirem ainda mais poder. A hora da historinha transforma-se numa espécie de cerimônia de transmissão de símbolos. Em nada se compara, portanto, à leitura de uma narrativa pós-moderna, principalmente aquelas cheias de sacadas críticas - muito boas, mas que estimulam apenas o intelecto.



Angela Minatti e David Moisés


Leia também no livro:
O encanto real dos contos de fadas .................... p.107



CLIQUE para adquirir seu livro:
((( 11 976 303 862 ))) whatsapp
((( prepareomundo@gmail.com ))) e-mail

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O jeito de fazer as coisas com as crianças


Para quem acha que a rotina com foco em resultados é uma forma de educar a molecada desde cedo para o mundo das responsabilidades etc, etc, a má notícia é que essa prática não costuma funcionar, e pode mesmo ter efeitos inversos. Ficar com as crianças e fazer coisas junto com elas é entrar no seu mundo, e não colocá-las no mundo dos adultos. É no seu universo, usando os recursos de que dispõem, que elas podem ir se tornando mais aptas a lidar com a realidade mais complexa.

A gente sabe que a pressão no trabalho é grande, que a jornada só vale com resultados entregues e metas batidas. Por isso é importante mudar de sintonia na hora de ficar com os pequenos. No mundo deles, “fazer as coisas” é muito diferente de executar tarefas para ter as coisas feitas dentro de um prazo, com eficiência e eficácia. Também não se trata de ensinar-lhes didaticamente a “fazer o que tem de ser feito”.






Dar banho neles não é uma tarefa com o objetivo absoluto de deixá-los limpinhos e cheirosos. Dar-lhes comida, vesti-los para ir à escola, levá-los para seus berços à noite são momentos cruciais para o psiquismo e para a estrutura emocional, que indicam o sentido do seu crescimento. Nessas horas, as crianças vivem momentos em que se misturam intensamente a pequena história pessoal, os valores, hábitos e costumes da família, as informações novas e as novas capacidades, os sentimentos brutos e os mais elaborados…

Nesses momentos, os adultos realizam sua função de dar suporte ao desenvolvimento psíquico-emocional e à base das capacidades intelectuais das crianças. Ou seja, é aí que efetivamente cumprem seu papel de criar gente. Quem encara isso de corpo e alma é quem faz a diferença entre uma simples troca de fralda e uma oportunidade de interação afetiva, integração de sentimentos e amadurecimento. Então, fazer as coisas com as crianças é também dar tempo para que coisas aconteçam no universo da percepção e dos sentimentos.

Daí a gente logo pensa nos horários. Tem hora para chegar à escola, afinal, e a mamãe tem de ir pro trabalho, o papai não pode demorar muito no almoço… Além disso, tem os horários que fazem parte dos próprios limites indispensáveis na rotina da molecada: das refeições, do banho, de parar de ver filme e de jogar, de ir pra cama etc. As coisas a serem feitas precisam, sim, acontecer. Entrar no mundo das crianças e dar-lhes tempo não é ignorar essa realidade, mas focar a atenção no processo, na experiência.

É claro que são necessários ajustes na agenda profissional de mães e pais. Acordar 15 minutos mais cedo pode ser suficiente para dar aos pequenos aquele tempo de enrolação com as roupas, e talvez cinco minutos a mais no almoço sejam suficientes pra eles poderem fazer aquela cara de nojo pra uma comida nova, sem serem criticados nem pressionados com o anda-logo-que-tá-na-hora.

Alguns ajustes se fazem apenas com um uso mais inteligente do tempo. Às vezes, os adultos perdem um tempão tentando negociar com as crianças ou chantageá-las para levá-las ao banho, por exemplo, quando bastaria chamar uma vez e então pegar no colo e ligar o chuveiro. O choro revoltado e os esperneios são justamente algumas daquelas coisas que precisam acontecer. São reações aos limites, ou seja, sinais saudáveis de que há sentimentos sendo processados. Sem a negociação e a chantagem, sobra mais tempo para o que realmente interessa no banho.

O resultado final também interessa, mas é antes, no processo, que os pequenos têm a oportunidade de experimentar sensações e elaborar o que sentem, contando com um adulto que ouve com respeito e carinho, que acolhe a raiva e a tristeza, que consola e brinca enquanto cuida. Se esse adulto está ligado somente no objetivo da tarefa, muita coisa importante deixa de acontecer - porque tem de terminar o que estão fazendo. Aí as crianças vão procurar outros momentos para processar sentimentos - porque precisam muito disso.

A boa notícia é que os pequenos submetidos à rotina com foco em resultados continuarão protestando. Quando reclamam, estão mostrando que se angustiam porque são impelidos a amadurecer. Por isso lutam com unhas e dentes para contar com a presença e a atenção de seus cuidadores.

Angela Minatti e David Moisés


Leia também no livro:
Muito além de sabonetes e xampus .................... p.63


CLIQUE para adquirir seu livro:
((( 11 976 303 862 ))) whatsapp

((( prepareomundo@gmail.com ))) e-mail

domingo, 9 de outubro de 2016

Como é bom não ganhar presente

Querer e não ter, pedir e não ganhar, tentar e não conseguir, procurar e não encontrar, esperar e não alcançar. A frustração que se sente nessas situações é desconfortável, e por vezes dolorosa. Mas, de tão comum na vida - você não ganha tudo o que pede, certo? -, ela se torna uma parte da experiência diária, um daqueles incômodos que fazem a gente mudar de posição, se conformar e seguir em frente, buscar uma outra saída, inventar outro jeito, formular uma nova ideia.

Para quem ainda é pequeno, com pouca experiência em frustração, pedir e não ganhar é uma situação dramática e revoltante. Quanto menor a criança, quanto mais próxima daquela onipotência original da infância, mais fortes são os sentimentos causados pelo mundo que teima em desobedecê-la. Por isso a frustração das vontades da molecada resulta num incômodo bem maior, de proporções coletivas.

Só com muita prática é que os pequenos conseguem criar seu próprio jeito de lidar com esses ossos do ofício de viver. Precisam crescer com quilometragem suficiente pra aguentar a decepção com a lembrancinha no lugar do presente, pra suportar o cancelamento da viagem de férias ou a redução no orçamento das baladas, pra sofrer normalmente - sem agredir - quando a mina não tá a fim de namorar, pra lamber as feridas e continuar a vida quando o nome não sai na lista de aprovados ou quando a promoção de cargo não vem.

Dá para notar, então, como a frustração é importante no dia-a-dia das crianças. Ter prática e experiência nisso significa viver situações reais que provocam sentimentos intensos, como a raiva, a inveja e a tristeza, que podem então ser processados, refinados, lapidados e integrados a uma estrutura emocional mais humana e menos bruta. A frustração é o disparador dos sentimentos primitivos com que as ferinhas nascem. Ao dispará-los, permite aos pequenos conhecer e elaborar o que sentem, humanizar aquilo que originalmente é meio selvagem.

É assim - e somente assim - que um jovem ou um adulto podem um dia tirar de letra os dissabores variados que abundam na sua existência de mortais. Não porque calejaram e se amansaram com as sucessivas frustrações, mas porque os sentimentos trabalhados lhes são menos corrosivos, não cegam nem impedem o pensamento; ao contrário, esses sentimentos ampliam a capacidade de discernimento e a compreensão. Crescer sem frustração seria como crescer sem exercitar o corpo, sem tonificar os músculos.

Ninguém precisa programar frustrações para exercitar a prole, claro. A vida real se encarrega disso, com as limitações naturais, sociais, econômicas, políticas, culturais… O problema está do outro lado: tentar evitar, abrandar ou anestesiar a frustração da molecada.

Mesmo as mães e os pais mais conscientes são tentados a poupar seus filhotes dessa experiência, ainda que reconhecendo sua importância. A ira primitiva, a inveja e os outros sentimentos brutos disparados nessas horas reverberam com muita força nos genitores, há traços de identificação com o sentimento das crias, há um considerável trabalho emocional para os adultos também.

Tentativas de escamotear frustrações acontecem também porque há adultos que ficam com dó, não suportam ver “sofrimento”, querem formar filhos vencedores, querem que a prole tenha aquilo que nunca puderam ter, ou simplesmente não têm saco pra ouvir criança chorando. Nesses casos, evitam situações que envolvam risco de gerar frustração e (como isso só é possível numa parcela diminuta da existência) tentam ludibriar os pequenos quando a coisa acontece. A estratégia envolve até negar que o fato frustrante ocorreu, ou dar-lhe outro significado, ou ainda minimizar a frustração desvalorizando o fato como algo sem importância.

Lidar com a frustração da molecada exige muita energia, disposição, paciência e determinação. Porque essa é a hora do limite, hora de permitir e acolher a reclamação, o choro, o esperneio, a birra, a manha etc, sem oferecer nada para compensar ou consolar, sem tentar mudar de assunto, sem explicar que acontece por causa disso ou daquilo, sem criticar, sem negociar. É hora de dar colo e carinho apenas. As crianças precisam dessa experiência vital, e vão insistir para tê-la. Ou seja, tentar evitar a frustração acaba por intensificar as situações e o disparo dos sentimentos primitivos. Melhor encarar o trabalho já, e não deixar que ele se multiplique depois.

David Moisés e Angela Minatti

Leia também no livro:
Ensinar afeto sai mais em conta ............... p.56



CLIQUE para adquirir seu livro:

((( 11 976 303 862 ))) whatsapp

((( prepareomundo@gmail.com ))) e-mail

terça-feira, 12 de julho de 2016

Remédio para indisciplina e desinteresse na escola





Está ficando “normal” usar remédios para resolver problemas de comportamento de crianças na escola. Há alguns anos essa ideia perigosa começou a circular entre pais e educadores como solução moderna e rápida para casos de hiperatividade. Logo a rebeldia e a indisciplina, a falta de interesse nas aulas e até algumas dificuldades de aprendizagem passaram a ser vistas como sinais de hiperatividade. Alguns estudos nas áreas de psicologia e sociologia demonstraram essa medicalização na rotina escolar, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) chegou a alertar para o uso “muito difundido” do metilfenidato (Ritalina e Concerta), inclusive como “droga da obediência” e como “instrumento de melhoria de desempenho”.

O relatório da Anvisa, de 2012, é citado num estudo mais recente, de 2016, que analisou escolas públicas e particulares de Florianópolis e relevou como essa solução química está incorporada ao discurso pedagógico. A pesquisadora Karina Giusti, da Universidade Federal de Santa Catarina, entrevistou educadores numa amostragem de oito escolas e detectou uma visão dos “comportamentos infantis em termos biológicos e neuroquímicos”, o que contribui para uma “patologização” da vida das crianças. Ao mesmo tempo, os educadores se sentem “perdidos” diante do aumento do número de crianças submetidas ao uso de psicofármacos, relata a pesquisadora.

Essa tendência de associar o funcionamento psíquico a bases orgânicas é antiga, e já em 2007 um estudo da USP alertava para a chegada dessa mania às escolas. Nele, Renata Guarido chama atenção para a “psiquiatrização do discurso escolar”. Há um grande risco quando se coloca tanta importância em técnicas, seja para dominar conflitos ou para atingir competências, porque a educação dos pequenos não é apenas instrução acadêmica. Junto com o aprendizado intelectual, eles estão se esforçando para se constituir como sujeitos no mundo. Os conflitos são parte indispensável nesse processo, e por isso exigem tanto trabalho dos educadores.


Esse assunto já esteve na mídia e provocou alertas importantes, mas parece que a tendência não se reverteu. Pior, a normalização da ideia de medicalizar a indisciplina e o desempenho ruim na escola cria um efeito manada, tipo todo-mundo-usa, uma sensação de que usar remédio não faz tão mal assim… Tudo isso se agrava com a própria realidade do cuidado às crianças, repleta de trabalho duro e desafios naturais, e com os novos desafios surgidos da falta de cuidados adequados (a molecada cria mais problemas na escola quando não está recebendo esses cuidados). No fim, somam-se ainda mais justificativas para buscar soluções modernas e rápidas para toda essa “hiperatividade”.

Tudo se agrava também pelo próprio uso dos remédios. Estudiosos do tema já suspeitavam que as crianças poderiam se tornar menos sensíveis à droga, e os educadores parecem confirmar esses temores. No trabalho de Giusi eles relatam que a medicação inicialmente “ameniza os efeitos dos transtornos, mas, com o tempo, os alunos voltam a apresentar os mesmos comportamentos que levaram ao diagnóstico”. Daí vem a aplicação de doses maiores ou de substâncias mais potentes.

Estudos sobre o impacto desses medicamentos nas crianças certamente virão à luz em breve, mas por ora é preciso contar com pesquisas que mostram, por exemplo, alterações em marcadores neurais de plasticidade no cérebro de ratos jovens, indicando que o metilfenidato pode alterar propriedades básicas do córtex pré-frontal. De qualquer forma, é bom lembrar que não estamos falando de efeitos colaterais em pacientes que necessitam claramente do uso da substância, e sim de crianças submetidas à droga como medida de controle comportamental, com base em diagnósticos questionáveis ou flagrantemente equivocados.


Ninguém duvida do trabalho árduo que têm os educadores na rotina da sala de aula, nem da crescente dificuldade que eles enfrentam ao receber na escola gerações de crianças “mais difíceis”, enquanto sofrem pressões por desempenho em sua missão de formar homens e mulheres de sucesso. É sintomático, aliás, que a medicação seja um recurso mais naturalmente aceito entre aqueles que trabalham com turmas maiores. Mas é preciso lembrar que não existem soluções modernas e rápidas para lidar com a rebeldia ou para fazer os pequenos gostarem de estudar. A experiência do dia a dia tem demonstrado que a promessa química não resolve, e pode até mesmo piorar as coisas.

Nos conflitos, nos sinais de desinteresse e na bagunça aparecem os sentimentos brutos, a matéria-prima com a qual se constitui um sujeito, uma pessoa única com suas capacidades em desenvolvimento ao longo da vida. Os problemas, portanto, poderiam ser vistos como objeto do trabalho dos professores - assim como dos pais -, e não como mero desvio no cronograma escolar.

Enquanto não se inventam uma droga ou uma técnica que façam a mágica de transformar os impulsos primitivos das crianças em sentimentos humanos razoavelmente lapidados, ou que substituam o trabalho dos pais e cuidadores na garantia de um ambiente de desenvolvimento com limites e afeto, o caminho continuará sendo o de sempre: cuidar dos pequenos a cada dia, reconhecendo que as dificuldades e chatices da rotina são, na verdade, os momentos cruciais para eles começarem a sentir algum gosto pela escola, pelo convívio com os colegas, pelo mundo.


David Moisés e Angela Minatti


Leia no livro:
Mas que bagunça é essa ?! ............... p.356



CLIQUE para adquirir seu livro:
((( 11 976 303 862 ))) whatsapp

((( prepareomundo@gmail.com ))) e-mail

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Classificação indicativa é pra valer



Quem já teve de mudar de canal às pressas, diante daquela cena forte que surge de repente no filme de domingo à tarde, sabe como é importante a classificação indicativa de programas por faixas etárias. Se as emissoras já abusam, mesmo sob os olhos da lei, pior seria se não houvesse regulação e informações sobre cenas inadequadas para menores de 10, 12 ou 14 anos. Mas não basta ser rápido no controle remoto.

Respeitar a classificação etária ao deixar a molecada diante da TV é uma decisão séria, com muitas implicações sobre a percepção dos pequenos sobre a vida.

Se o filme que tá começando é classificado para 10 anos, o menino de 9 anos não deveria assisti-lo. Claro que vai rolar muita argumentação enquanto as letrinhas iniciais aparecem na tela. Para o garotão, não faz diferença ter 9 anos e 7 meses e ter 10 anos completos; para os adultos na sala, que também querem relaxar no sofá, essa classificação é meio imprecisa mesmo… São argumentos válidos, mas a questão fundamental é respeitar ou não a classificação.

É provável que a discussão não se conclua e acabe todo mundo curtindo o filme até o fim, deixando pra trás uma chance valiosa de mostrar na prática que existem pessoas cuidando das crianças.

Quando os pequenos notam, na advertência inicial, que alguém teve o trabalho de assistir àquele filme antes, de analisar seu conteúdo e fazer uma recomendação para que menores de 10 anos não o assistam, sentem-se objeto de um cuidado. Por mais que achem nada-a-ver essa recomendação e fiquem ainda mais a fim de burlá-la, sentem-se protegidos. Quando os pais ou outros cuidadores respeitam essa restrição, os revoltados menores de 10 anos sentem que estão sendo ainda mais cuidados por esses adultos.

O contrário disso tende a ser uma sensação de abandono e vulnerabilidade, uma percepção de que o cuidado oferecido por aqueles que classificaram o filme não tem valor, de que a lei não é coisa pra ser assim tããão respeitada...

Dentre tantas outras implicações, basta lembrar dois pontos básicos. Primeiro, as crianças passam boa parte da infância procurando modelos a copiar e a seguir, e é com esses olhos que elas assistem à TV. Dá pra imaginar o que isso significa quando têm diante de si cenas e tramas complexas e impactantes.

Segundo, crianças são seres ainda incapazes de lidar com todos os tipos de sentimento. Conteúdos produzidos para adolescentes mobilizam sentimentos com os quais os pequenos não sabem lidar, que causam sobrecarga emocional e sofrimento.



Isso vale para todo tipo de conteúdo, inclusive online e impresso, embora nesses campos ainda não haja no Brasil uma classificação detalhada como para a TV. Mesmo histórias em quadrinhos precisam ser selecionadas com critério, especialmente depois que aquela turminha dos gibis cresceu e passou a agitar tramas adolescentes no mangá da Turma da Mônica Jovem.

Acostumados aos personagens coloridos na versão infantil, filhos e pais são levados facilmente a acreditar que a versão hormonizada vai render a mesma diversão. Mas histórias com tom sombrio, por vezes sinistro, pesam demais sobre os pequenos leitores. A editora adverte na capa dos exemplares (em letras miúdas) que o conteúdo é “aconselhável para maiores de 10 anos”, e é bom que os adultos prestem atenção a isso.

Pra se mexer

Quem compreende a importância da classificação indicativa de faixa etária para programas, espetáculos e outros conteúdos tem de saber que a legislação sobre o tema precisa avançar. No momento, entretanto, há um risco de retrocesso.

No Supremo Tribunal Federal (STF), as emissoras de TV estão tentando retirar da lei o artigo que as impede de exibir programas impróprios para crianças em determinados horários. Alegam que essa proibição é um cerceamento à liberdade de expressão.

Os ministros do STF têm sido muito corretos na garantia da liberdade de expressão no Brasil, sintonizados com as mais avançadas correntes do direito internacional. Isso é ótimo, mas neste caso eles parecem estar se confundindo. O relator Dias Tóffoli deu parecer favorável às emissoras, e foi acompanhado por 3 outros ministros: Luiz Fux, Cármen Lúcia e Ayres Britto (agora aposentado).

Só que não se trata de impedir veiculação de conteúdo. A lei apenas regula a exposição de forma a proteger crianças brasileiras que passam de 4 a 6 horas diárias diante de um aparelho de TV - em geral, sem a companhia de um adulto. O ministro Edson Fachin compreendeu isso e, em novembro de 2015 deu o primeiro voto contra o pleito das emissoras. Em seguida, Teori Zavaski pediu vistas, e agora a matéria está para voltar à pauta do Supremo.

Há uma mobilização de organizações sociais, chamada Programa adulto em horário adulto, que tem o objetivo de sensibilizar os ministros do STF e evitar essa mudança na legislação. Ao contrário de abrandar os mecanismos de pressão sobre as emissoras, é preciso aperfeiçoá-los, permitindo denúncias e punições também nos casos em que a classificação etária é inadequada, por exemplo. É uma causa pela qual vale se mexer.

David Moisés e Angela Minatti

Leia no livro:
Televisão não é babá.................p.82


CLIQUE para adquirir seu livro:
((( 11 976 303 862 ))) - whatsapp

((( prepareomundo@gmail.com ))) - e-mail