sábado, 5 de dezembro de 2015

Tempo de brincar com eles


Que tal brincar com a molecada nessas férias?
Tipo brincar junto mesmo.
Quando, onde, como e o quanto for possível.
De esconde, de luta, de casinha, de carrinho, de boneca, de pula-corda, de cantar, amarelinha, pega-pega… Tudo que mexa com o corpo, a imaginação e os sentimentos.

Brincar é indispensável pras crianças (pros maiorzinhos também), e você tem visto muita coisa sobre isso na mídia. Mas não precisa apostar tudo em monitores de shopping, acampamentos e programas de recreação de férias. Nada substitui aquela gritaria dos pequenos fugindo do pai-monstro-jurássico, correndo do quarto para a sala, medrosos e felizes.

Tem dezenas de brincadeiras caseiras capazes de criar esses momentos de diversão, fortalecimento e crescimento. Não importa se elas nunca estiveram na tradição familiar dos pais, se ninguém sabe como se brinca. É assim mesmo: brincar é diferente de jogar e competir, então as regras (“não vale olhar antes de terminar de contar”) vão sendo feitas no meio do rolo. Aliás, tem brincadeira que só interessa porque tem discussão de regras toda hora.

Como em tudo nesse setor, não espere viver cenas alegres de comercial de TV. Elas podem acontecer, mas brincar de verdade é se divertir, se cansar, sentir coisas boas e ruins, brigar no meio ou no fim, se reconciliar e continuar. Porque brincar é uma autêntica parte da vida. Por isso é tão bom, tão importante e intenso.

Pra quem acha que isso dá trabalho, a resposta é: claro! E fica até um trabalho penoso quando não se compreende o valor desse tempo livre com a filharada. Mas é obrigatório, e a gente pode escolher fazer isso do jeito fácil, que é se jogando na brincadeira, pro que der e vier. O jeito difícil é, geralmente, vendo eles chegarem em casa depois de um dia divertido e extenuante com monitores, e olhando pra você com cara de vamo-brincá?


leia no livro:
Só brincando é que se cresce...........................................p.92
O que fazer (e o que não fazer) nas férias.........................p.119

Angela Minatti e David Moisés

sábado, 24 de outubro de 2015

Pais e escola: um papo complexo e indispensável



O chavão diz que os pais e a escola são parceiros na educação das crianças. É verdade, e todo mundo concorda, mas quando chega a hora de dar sugestões, fazer críticas ou pedir providências aos educadores, a conversa enrosca. Às vezes fica no hãn-hãn da professora, que finge aceitar tudo; às vezes vira bate-boca (cordial ou não). “Esse conflito entre pais e escola é histórico e ainda não tem solução”, diz Tizuko Kishimoto, docente da Faculdade de Educação da USP, pesquisadora no campo da educação infantil.

Mas isso não é pra desanimar ninguém. Ao contrário: é para que mães&pais, educadores e cuidadores percebam que essa dificuldade não é particular, pessoal, que na maioria das escolinhas e escolonas, públicas e privadas, a relação é delicada e trabalhosa. Então, participar da vida escolar dos filhos requer esforço; contar com a ajuda dos pais para o desenvolvimento dos alunos requer esforço. E todo esse esforço vale muito, sem dúvida. “As escolas que conseguem oferecer educação de qualidade são aquelas que se abriram à participação dos pais”, afirma Tizuko.


Em algumas escolas públicas de São Paulo, relata a pesquisadora, o desafio era atrair os pais. Uma estratégia envolvendo kits de brincadeiras e outras atividades lúdicas fez sucesso, e os adultos enfim adentraram os portões. Foi uma alegre surpresa ver como trabalhadores de baixa renda se engajaram nas atividades dedicadas à educação dos filhos. Mas aí os conflitos começaram a surgir, já que os genitores “perderam o medo de dizer o que pensam, do que discordam”. Neste ponto, o cenário fica então parecido com o padrão, e as professoras começam a evitar o contato com as famílias.

“É dificil mudar os hábitos de alguém que já trabalha de um jeito há muitos anos, é um problemão que se adiciona à rotina da escola”, explica Tizuko. Um novo peso na já pesada rotina docente, onde cada aluno traz uma família própria e particular na mochila.


Mesmo entre as escolas caras, habituadas a lidar com uma clientela cheia de exigências e opiniões, há mecanismos sutis para manter os portões virtualmente fechados. Tem aquelas que só fazem média: capricham no café, sucos & quitutes, promovem reuniões com apresentações espetaculares e fingem que ouvem os pais.

Tem pai de todo jeito, e nem sempre suas contribuições são razoáveis. É uma canseira lidar com a mãe que se acha pedagoga por vocação e compete com a professora, o pai que quer um prezinho mais conectado com a realidade do mercado profissional selvagem em que ele atua, a família fervorosa que quer ver seus valores incluídos no currículo, a mamãezinha do maternal que quer ser adotada pela professora da filha…


Mas existem recursos para coordenar essa participação, para que ela se torne produtiva e reverta em benefícios às crianças. É o que mostram escolas que reestruturaram suas atividades, abriram mão de práticas nem sempre úteis, integraram os pais de forma adequada e, hoje, comemoram a melhoria da qualidade do desenvolvimento de seus pequenos alunos.

Nessa relação tensa, os educadores são os únicos que podem fazer algo para melhorá-la. Talvez a primeira providência seja deixar de ver as manifestações dos adultos como uma intercorrência, um ruído ou chatice de quem vive em outra realidade. A chave pode ser aceitar essa difícil tarefa com os pais como parte necessária da rotina, importante para estruturar relações que precisam se estender até a casa da criança, integrando experiências. Se essa parceria é pra valer, o caminho deve ser por aí.


David Moisés e Angela Minatti

sábado, 12 de setembro de 2015

Receita caseira contra a intolerância e o extremismo




O mundo - esse lugar onde você acabou de botar sua prole - parece mais sombrio à medida que o noticiário e as redes mostram o êxodo de multidões, a crueldade cínica de terroristas, a intolerância no debate político e no convívio. Se já é duro encarar essa realidade pra consumo próprio, mais duro ainda é ajudar a molecada a lidar com o quase-desalento quanto ao futuro da humanidade.

A boa notícia é que não sabemos ao certo se o mundo está mesmo voltando à barbárie, ou se estamos apenas olhando de frente para atrocidades existentes há tempos. As imagens são pungentes e cheias de simbolismo. Dói no coração ver a cena final da vida de Alan Kurdi, 3 anos, com seu rostinho na areia, sem esperança, sem nada. Sua família fugira da Síria, onde terroristas aliciam adolescentes e decepam cabeças de reféns em espetáculos hediondos. Os Kurdi tentavam se refugiar na Europa, onde muitos governos e cidadãos os rejeitam aos pontapés. Entre esses dois mundos hostis, diante dos olhos de uma civilização assustada, o menino pereceu. Era só um corpinho que o mar, meio desajeitado, deixou na areia de uma praia.


A má notícia é que, se não sabemos se o mundo está ou não em retrocesso, podemos estar, sim, flertando com as trevas e trilhando um caminho de desumanização. O roteiro promete uma crise existencial global, mas pode ir além do mal-estar da civilização, comprometendo as capacidades de convivência e de manutenção dos recursos necessários à vida como a conhecemos.

Especular sobre o destino do homem é um esporte com adeptos e torcidas fanáticas, mas há um ponto de consenso entre os pessimistas, os otimistas e aqueles que apostam no dá-se-um-jeito: todos concordam que a coisa precisa melhorar. Humanos preferem deixar suas crias em ambientes seguros, com poucas ameaças, com recursos e oportunidades para que cresçam, desenvolvam competências, tenham sonhos, motivações e projetos, realizem(-se), sejam respeitadas, amem e sejam amadas, sejam felizes nos maiores graus possíveis de duração e intensidade.


Dá pra dizer que um cenário de intolerância e extremismos em confronto não é exatamente um lugar que ofereça essas condições em tempo e espaço suficientes. Quem tem filhos, portanto, se vê na dupla jornada de prepará-los para lidar com o sectarismo e, também, de ajudar o mundo a ser um lugar menos hostil, um ambiente de algum respeito mútuo e solidariedade.

Por sorte, ou talvez por cortesia do programa de milhagem da evolução humana, essas duas tarefas importantes podem ser cumpridas num mesmo trabalho, no mesmo esforço diário de cuidar dos pequenos. Manja quando a princesinha de 3 ou 4 anos persegue a mãe pedindo uma coisa por minuto enquanto choraminga? E quando o carinha tá de péssimo humor, dando chiliques?... É exatamente nessas horas que se faz a diferença.


Quando a mãe suporta sua própria vontade de dar uns gritos e consegue simplesmente ouvir aquela lamúria incômoda, aquele choro chato e agoniante, sem criticar, repreender, reprimir ou tentar encerrar a sessão de desconforto, está efetivamente trabalhando para que as crianças cresçam como pessoas capazes de refletir e consolidar opiniões razoáveis, de forma mais realista e ponderada. E está também forjando suas ferramentas para enfrentar a intolerância e o extremismo que vão encontrar por aí, no bate-boca ideológico-eleitoral, no bullying, na xenofobia e nas manifestações de preconceito, nas cenas tétricas do marketing do terror.

É simples, mas não é fácil; parece mágica, mas é trabalho. É importante ter claro que esses momentos de tormento com as crias não são desvios ou problemas na trajetória de pais & filhos. São momentos previstos, rotineiros e indispensáveis para que coisas fundamentais aconteçam no processo de humanização das crianças. Portanto, os adultos podem considerar cada situação dessas com a mesma importância que dão àquela convocação do chefe, ou à apresentação que farão semana que vem na empresa, e não como uma chateação do tipo pneu furado.


O que se processa nessas ocasiões prosaicas é um aprendizado para suportar a angústia, algo natural, que permeia a vida das pessoas. Esse mal-estar desconforta, empurra, provoca questionamento, crescimento. É claro que angústia demais é insuportável, assim como em doses insuficientes fica ruim. Nas crianças, é um motor que começa a funcionar e precisa ser conhecido como parte da existência.

Para os pequenos, essa sensação é desconhecida e forte, muitas vezes disparada pelo confronto entre suas vontades despóticas e a realidade que teima em não satisfazê-las. Para entender a força desse confronto é preciso lembrar que bebês nascem se achando deuses, que o leite sorvido na hora da fome é produto de sua intenção, assim como aquele seio - com uma mulher atrás, que ele só perceberá tempos depois - é fruto de sua onipotência.


É importante que pense assim. O pimpolho precisa crer com todas as forças que essa nova vida, fora do barrigão confortável, o acolhe plenamente. Se não acreditar nisso, pensará que o mundo lhe é pessoalmente hostil, uma sensação literalmente enlouquecedora. Na sua forma primitiva de raciocinar, as ferinhas começam assim, absolutistas, intransigentes, impacientes, imaginando que suas vontades são ou deveriam ser automaticamente atendidas.

Sua majestade tem de ir aos poucos caindo na real, aceitando que a demora no atendimento a algumas necessidades é contingência dessa vida imperfeita, e não uma agressão pessoal. Isso se aprende vivendo, experimentando, passando pelo desconforto da espera, pela chegada do leite na hora de mamar, pela saciedade que vem depois… Cada etapa é indispensável para esse aprendizado, que se estende pela infância e pela adolescência.


Crescer como gente é, em grande parte, compreender as condições diversas e adversas que compõem a realidade, e ser capaz de relacionar a elas as necessidades, interesses e vontades pessoais. É uma genuína superação da forma de pensar absolutista que caracteriza esse processo de humanização. Não é mera coincidência que as expressões mais sectárias e extremistas causem uma sensação de déja vu, de primitivismo infantil.

Mesmo quando adultas as pessoas tendem, por default, a optar por posições extremistas. Há uma tendência em buscar o mais certo, o melhor caminho entre os caminhos, aquele que poderia nos tornar mais plenos e realizados, felizes na confortável certeza de que basta seguir adiante para tudo resultar em muitos benefícios e poucos danos. Sempre há, portanto, ideias e posições radicais com as quais se defrontar, seja nos outros ou em nós, seja ocasionalmente ou de forma crônica. É a capacidade de enxergar, sem medo, as perspectivas e ideias divergentes que permite trocar uma verdade absoluta e cega por uma posição consistente e lúcida, que permite aceitar as diferenças, admitir ou rejeitar mudanças de modo consciente, firme e respeitoso.


Todo adulto sabe que isso não é lá muito fácil. E é justamente essa dificuldade que pode ser um forte aliado para o aprendizado dos pequenos. Quando os pais falam de seu sentimento, de como também se sentem contrariados, frustrados, tristes e indignados com a violência que brota da intolerância e do extremismo, e se mostram vivendo a vida, confiando nos seus valores e desejando uma vida mais solidária, ensinam a molecada a suportar seus próprios incômodos, a se libertar de ideias rígidas e verdades primitivas.

Se você quer dar uma mãozinha pro mundo, comece logo!



David Moisés e Angela Minatti


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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O adulto segura as pontas






Acontece bem naqueles momentos em que tudo pode ficar bem: o fim do domingo, a hora de sair de casa ou, pior, o começo do feriado. É nessas horas que a amável garotinha empaca na porta porque não encontra a presilha rosa (no meio das outras cinco que o pai esbaforido mostrou); o rapazinho reclama em tom de dobradiça de porta pela bola, aquela redonda que ele não encontra pra levar no dia do brinquedo; ou quando sentamos pra jantar, a belezinha chora sem lágrimas pelo chiclete laranja que não veio na caixinha de cinco cores.

Se reagir no modo automático, o adulto dispara frases prontas, objetivas e práticas, que geralmente antecedem gritos, sermões e mau humor. Mas nada disso pode colaborar com aquele pequeno ser humano.

Dá angústia ver isso, e a primeira coisa que você pensa é que não vai sobreviver. Mas, se considerarmos alguns aspectos, vemos luz no fim do túnel. Suportar essa angústia contribui decisivamente com a criação do espaço de que a criança necessita como se fosse o próprio ar. Por isso, tem de aguentar chegar ao fim do túnel! Esse é o trato.

Encontramos na sustentação destas cenas tragicômicas a grande fórmula para nos dirigir na construção de um espaço arejado, onde caibam a existência pacífica entre tantas demandas que se cruzam no dia a dia com os filhos.



Sustentar, nesse caso, é assumir o incômodo, dar suporte à pedra invisível que pesa no peito, adotar a postura de quem compreende que de fato não sabe a causa de tantos choros e impossibidades que surgem nestas horas, mas que pode sustentar as sensações que pertencem à constituição desse humano. Enfim, encarar a certeza de que o mundo interno é regido por determinantes inconscientes que cognitivo nenhum dá conta ou refrea.

O trabalho árduo é o de suportar a situação angustiante. Dar suporte nos obriga, naquela hora em que minha raiva assumiu o comando, a retroceder, esperar, manter os limites e aceitar o incômodo.

Mesmo que dê vontade de pensar alto diante dos filhos, o momento é para silenciar, retomar os pensamentos como seus e escolher o que é assunto de pai e filho, de mãe e filha; hora em que seu lugar é o de sustentador.

Não, não se escapa da angústia. Hora de entregar-se a ela com confiança pura de que algo fundamental para eles está em processo e eu, cuidador, permanecerei ali, sem entrar e sem me safar com saídas inteligentes, mudando de assunto ou lembrando algum ditador sanguinário.

O efeito desta ocupação quase diária é impressionante!

Começa em nós e reverbera nas crianças, sedentas de transitar por esse ambiente trabalhoso, que só aos poucos lhes aparece como seguro. Aí elas podem experimentar as sensações mais primitivas e trágicas, passando a abrandar tantas intensidades e pacificando seu mundo com a ajuda daquele adulto que não se perde nas turbulências.

Angela Minatti e David Moisés

sábado, 13 de dezembro de 2014

Cuidado com a TV



Os pais brasileiros parecem conscientes do seu papel em relação ao que crianças e adolescentes devem ou não ver na TV:
  • 100% afirmam que eles devem ser os responsáveis por esse controle de conteúdo.
Também se mostram atentos sobre o tipo de conteúdo que pode ser nocivo aos filhos:
  • 91% se dizem muito preocupados (67%) ou preocupados (24%) com cenas de mortes violentas;
  • 92% se dizem muito preocupados (67%) ou preocupados (25%) com cenas de agressão física e violência;
  • 95% se dizem muito preocupados (79%) ou preocupados (16%) em relação a cenas de tortura, suicídio ou estupro.
Mas revelam que só a metade deles exerce efetivamente esse controle:
  • 54% respeitam sempre a classificação indicativa dos programas;
  • 34% das crianças e adolescentes respeitam a classificação indicativa dos programas quando os responsáveis estão presentes.
Esses dados estão na pesquisa que a Unesco Brasil e o Ministério da Justiça apresentaram em 11/12/2014, depois de ouvir em todo o país 3.023 adultos sobre "o comportamento das crianças/adolescentes e dos pais/responsáveis em relação ao uso das mídias".


Os números destacados acima são positivos quanto à consciência sobre essas questões, mas preocupantes quanto ao cuidado efetivo que os adultos estão conseguindo oferecer à molecada. Revelam, portanto, um campo fértil para necessárias e desejadas políticas de orientação às famílias sobre como proteger a prole de conteúdos nocivos.

O estudo, em si, é um passo nessa direção. A Unesco vem trabalhando no que se chama educação para a mídia (ou media literacy), um conceito amplo que inclui o desenvolvimento de competências para avaliar conteúdos e saber como usá-los - ou descartá-los.

Esse termo surgiu há alguns anos, associado a pesquisas sobre o impacto da TV e dos games sobre as crianças. A Academia Americana de Pediatria chegou a fazer recomendação explícita, em comunicado, sobre a necessidade da educação para a mídia.

O estudo da Unesco Brasil e do Ministério é um passo também para o fortalecimento do sistema de classificação indicativa, sempre ameaçado pelos interesses das grandes emissoras comerciais. Há quem tente "simplificar" o sistema, sugerindo reduzir o número de faixas etárias - como se acreditassem que um garoto de 10 anos recebe o mesmo impacto que um de 14.

É importante manter as faixas etárias e fortalecer o enquadramento do conteúdo. Você pode já ter vivido aquela situação de emergência quando o filme para "12 anos" mostra, de repente, uma cena de violência sensual/sexual que abala inclusive os adultos.

Cabe às emissoras investir (sim, é preciso gastar dinheiro nisso) numa classificação sempre mais apropriada,  assim como cabe aos adultos em casa manter a atenção e o controle - não apenas o remoto.

David Moisés









segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A janela de oportunidades no cérebro dos bebês



É legal ver como muitas pessoas estão percebendo a importância estratégica de cuidar bem das crianças, desde pequenas, para que cresçam com ótimas capacidades e oportunidades. Você deve estar vendo por aí se falar mais em primeira infância, zero a três, zero a seis, estímulos precoces, janela de oportunidades para o desenvolvimento da criança etc.
Seria bom lembrar umas coisas.

O período inicial da vida dos pequenos tem muito mais a ver com afeto e estrutura emocional do que com inteligência. Quer dizer, qualquer pai pode desejar que sua prole tenha um QI exorbitante e uma carreira meteórica, com uma rápida escala em Harvard como gênio-convidado, mas não vale tentar turbinar o cérebro do nenê.

Esse velho papo de aproveitar a criança em desenvolvimento para aplicar adubos cognitivos volta sempre com alguma técnica recém-lançada ou com algum mote publicitário bacana. À medida que novos estudos mostram como o cérebro se forja na infância, aumenta a tentação de aproveitar a massa fresca para implantar algum chip que multiplique o desempenho intelectual.

a construção do cérebro


Bate um certo ai-meu-deus quando a gente lê que “80% das células cerebrais que uma pessoa terá para sempre são produzidas nos dois primeiros anos de vida”, e chega-se facilmente ao desespero na parte em que o cientista diz que “se o processo de construção dessas células e das conexões entre elas der errado, os déficits serão permanentes”.

Esses textos costumam ser acompanhados daquelas imagens chocantes mostrando o cérebro de uma criança de 3 anos severamente negligenciada, que parece desidratado, contraído, com reentrâncias e áreas “vazias”, menor do que um cérebro normal de criança suficientemente cuidada.

cuidado afetivo suficiente


Um dos cientistas que falam e escrevem essas coisas é Allan Schore, da Universidade da Califórnia – Los Angeles (UCLA). Mas o interessante, no caso dele, é o resultado de seus estudos para determinar o que seria uma criança suficientemente cuidada. É essencialmente a presença afetiva da mãe ou de um adulto cuidador que faz a diferença, conclui o pesquisador.
O desenvolvimento das células do cérebro e de seus circuitos “é uma consequência da interação da criança com seu principal cuidador, depende literalmente de uma interação positiva entre mãe e filho”, afirma Schore.


Ele é identificado geralmente com o attachment parenting (criação ou parentalidade com apego, como alguns traduzem), uma espécie de linha ou escola de pensamento que, como tal, sofre lá suas críticas e provoca suas controvérsias. Os estudos de Schore, de qualquer forma, fazem grande contribuição, assim como sua experiência na área.

Dê uma olhada nesse trecho de sua entrevista a um jornal uruguaio:
P - Como a mãe pode saber que está fazendo as coisas direito?
Allan Schore – É uma aprendizagem que não tem tanto a ver com ‘fazer’, e sim com ‘ser’. Como transmitir empatia? Sendo cuidadosa e atenta, pondo o bebê em primeiro lugar, sendo aberta, genuína, estando disponível emocionalmente. Também ajuda se há uma relação forte entre a mãe e o pai. A chave é essa satisfatória forma de relacionamento. O foco não é racional, mas sim emocional.
Se você leu
  • Pós-graduação para crianças (p. 246),
  • Ele não é um geniozinho?... (p.212) ou
  • Salvando bons alunos (p.238)
vai lembrar que a estrutura emocional é base para a construção das capacidades intelectuais – nunca o contrário. Agora estamos perto de concluir que as emoções são base para a construção do cérebro em si.

a matéria-prima


O que os novos estudos estão mostrando não são simples janelas de oportunidades na cabecinha das crianças, mas um outro tipo de fundação, que passa por processos físicos, psíquicos e emocionais e que se estrutura na relação com a mãe e seu cuidado afetivo, matéria-prima inigualável.

Portanto, é bom não trocá-la por estímulos, softwares pedagógicos ou chips que não tenham onde ser plugados.

David Moisés e Angela Minatti


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Palmada e a lei





A Lei da Palmada é uma pavonice de políticos e celebridades, é conceitualmente vaga, propõe-se inutilmente a regular o que já está regulado pelo Código Penal, cria algumas incertezas e deve acabar virando algo juridicamente inócuo. São vários os defeitos apontados por especialistas de diversas constelações do conhecimento desde que a ideia começou a tramitar na Câmara dos Deputados, com o projeto de lei 2654/2003, até a sua aprovação pelo Senado em 4/6/14, na forma do PLC 58/2014, encaminhado para sanção presidencial. Um aspecto parece ser positivo: ela é uma lei.

Campanhas contra chineladas e palmadas existiram e existem, mas não têm a força suficiente para provocar reflexão maior numa sociedade acostumada aos castigos físicos como recurso educativo. O Brasil tem uma longa tradição de manuais de puericultura que ainda no século 21 prescreviam aos genitores infligir dor a seus petizes como forma de discipliná-los. É claro que hoje não pensam assim os que admitem bater no bumbum como última das soluções pedagógicas ou que advogam o tapinha leve, mas é forte o atavismo ou a conveniência que mantêm o exercício renitente desse poder. Em 2010, eram 54% os brasileiros contrários a qualquer medida legal para coibir essas práticas.

Crianças mimadas e despóticas, produzidas em escala crescente, servem de munição para quem diz que está faltando palmada. Faltam limites, que nada têm a ver com palmadas (abordamos isso nas pgs. 43 a 60). Dar limites dá mais trabalho, exige discernimento, disposição, firmeza e respeito pela criança. Isso é o que funciona, mas requer um preparo que os pais dificilmente recebem em suas famílias e que não encontram nos guias de autoajuda. Para piorar, na era ilusionista do consumidor-rei, do conforto permanente e da satisfação imediata com 36 meses para pagar, é difícil optar por algo que exija mais empenho em vez de clicar na tecla Paft “quando a paciência acaba”. Depois, curte-se no Face aquele post tipo “obrigado mamãe pelas surras que fizeram de mim um homem digno” e sossega-se a consciência.

Argumentos e piadas

Assim como posts, não faltam bons argumentos contra essa lei incômoda. Preocupa, por exemplo, o fato de estarmos com ela recorrendo ao direito penal para forçar os pais a serem melhores pais. Cria-se assim mais uma grande demanda ao Judiciário, já assoberbado e moroso. Além disso, nosso aparato judicial tenderia historicamente a ser muito intrometido e abusivo quando trata dos domínios domésticos. Tem ainda o argumento de que o Brasil cria leis demais com educação de menos. E tem também as piadas - não intencionais, em alguns casos -, como a dos pais protestando por não poderem mais “educar” seus filhos, crianças abusando da proteção legal para extorquir mimos e presentes etc.

A Lei da Palmada não deve mudar nada para quem se acha no direito de dar uns tapas esporadicamente, e ninguém precisa se preocupar com vizinhos pescoçudos inventando coisas para denunciar ao Conselho Tutelar ou à polícia. A imprecisão do texto torna difícil sua aplicação. Mas essa imprecisão pode ser positiva justamente por fazer a sociedade dedicar um tempo a pensar e a tentar definir o que seria sofrimento físico, humilhação e ridicularização impostos por um adulto a uma criança ou adolescente, por um pai a um filho. Aliás, esta reflexão induzida, e até mesmo forçada, é uma das razões pelas quais existem as leis. Neste caso, a lei transmite a decisão fundamental da sociedade (afinal, bem ou mal, nós elegemos aqueles caras no Congresso) de dizer não aos castigos físicos e psicológicos.

Filhos testam e irritam seus pais porque precisam

Essa interdição de um caminho costumeiro nos leva a sair do piloto automático e a pensar em rotas alternativas, a traçar novos circuitos simbólicos e a ser gradativamente mais capazes de empreender outras atitudes, que não precisam nem rumar na direção das palmadas. Filhos testam e irritam seus pais porque precisam: enquanto fazem isso, conseguem construir algumas das capacidades psíquicas e emocionais necessárias à vida neste mundo. Pode-se atuar nesse processo dando o suporte adequado, sem tapinhas frios e pretensamente pedagógicos (linguagem estranha essa...), sem que a irritação natural se agrave desnecessariamente e predomine a ponto de levar a um tabefe - que significa a perda de controle e a derrota completa.

Há um caminho razoável, com diversas possibilidades de cuidado que podem ser conhecidas e exploradas quando se bloqueia o acesso fácil e viciado à solução da palmada. A lei pode não pegar, ou pode pegar e provocar efeitos colaterais danosos - devemos estar prontos a corrigir. Enquanto isso, podemos aproveitar para dar mais um passinho à frente no nosso vacilante processo civilizatório.

David Moisés e Angela Minatti